Política, cultura e generalidades

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A volta do Mixto Quente

Ontem às 22h voltou ao ar através do Canal Viva um dos melhores programas televisivos da década de 1980: o Mixto Quente. Este programa foi lançado pela Rede Globo em janeiro de 1986, para estender o sucesso que o rock brasileiro alcançou nacionalmente a partir do Rock in Rio original, de janeiro de 1985. A fórmula do programa era muito boa, e até hoje não foi igualada: várias bandas e cantores do rock nacional e alguns nomes relacionados da MPB se revezavam no palco, sempre montado ora na Praia do Pepino ora na Praia da Macumba (ambas no Rio de Janeiro), tocando ao vivo suas músicas (nada de playback) durante o tempo de programa, que durava uma hora (incluindo os intervalos comerciais).

Contextualmente e culturalmente falando, o rock brasileiro na primeira metade da década de 1980 ficou restrito a alguns segmentos, nichos e redutos localizados principalmente nas grandes cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, o rock nacional teve seus redutos, como a Fluminense FM e casas como Circo Voador e diversas outras, a maioria já extintas. O rock nacional continuou sendo algo apenas de cidade grande, apesar do estouro nacional de alguns nomes como Blitz e Os Paralamas do Sucesso e da presença de várias dessas bandas em rádios pop, como a Rádio Cidade. Esse cenário mudou com o Rock in Rio de 1985. A partir daí, o rock nacional se tornou, efetivamente, um sucesso nacional, atingindo até mesmo rincões do país. Era evidente que mesmo veículos nada-a-ver-com-rock embarcariam na onda, de alguma forma. Depois de transmitir boa parte do Rock in Rio, a forma que a Rede Globo encontrou para permanecer na onda foi colocar algumas dessas bandas e cantores do rock nacional na sua programação e criar o Mixto Quente, para juntar todas elas num programa praticamente só delas, em sequências de números musicais ao vivo.

O Mixto Quente em si também era, num contexto mais geral, fruto da cultura da juventude da época. Além da escalação das bandas e cantores, a estética do programa era escancaradamente voltada para os jovens. O palco era montado em forma de asa delta, e tinha uma torre de vidro ao fundo, com uma estética claramente oitentista. A logomarca também refletia a estética da época. E a escolha dos locais de gravação (duas praias cariocas) era um pretexto para mostrar a própria juventude se divertindo na praia, para que os próprios se identificassem com o programa vendo vários jovens semelhantes a eles ali na tela, geralmente vestindo a moda praia da época.

A escalação do programa de ontem (exatamente a primeira edição gravada, em janeiro de 1986) foi uma boa amostra de todas as edições do Mixto Quente. Começou com Lulu Santos, primeiro nome oitentista (mas egresso da banda progressiva setentista Vímana) a fazer sucesso (isso em 1981!). Lulu tocou faixas que constaram em seu primeiro compacto e em seu LP Tempos Modernos. Aliás, Nelson Motta (antigo parceiro de Lulu) integrava a equipe de produção do programa. Assim como o fever Miguel Plopschi, que visivelmente influiu pouco na concepção artística do programa. Lulu Santos foi a atração principal da edição de ontem, pois tocou mais músicas que os outros, abriu e fechou o programa. O setentista Guilherme Arantes foi a única atração do programa a não estourar na década de 1980. Guilherme começou a carreira na banda de rock progressivo Moto Perpétuo em 1973, estourando em carreira solo posteriormente, ainda nos anos 70. Supla apareceu no programa a bordo de sua então banda Tokyo. Vinícius Cantuária e Kiko Zambianchi completaram, com Lulu Santos, a lista de artistas solo oitentistas do dia. O Capital Inicial tocou ao vivo a música Descendo o Rio Nilo, ainda com o arranjo utilizado no compacto lançado anteriormente pela CBS e tocado na Fluminense FM. Os Titãs também compareceram, ainda em sua fase pré-Cabeça Dinossauro.

Praticamente todos os nomes do rock nacional que estouraram nacionalmente tocaram e cantaram no Mixto Quente. Eles deverão aparecer nas próximas edições do programa. Inclusive as duas maiores bandas da década: Legião Urbana e RPM. Também deverão aparecer artistas da MPB que já faziam sucesso na época. A lista de futuras atrações do Mixto Quente no Canal Viva é enorme: Barão Vermelho, Zero, 14 Bis, Plebe Rude, Tim Maia, Escola de Escândalos, Cazuza, Caetano Veloso...

Nenhum comentário:

Postar um comentário