Política, cultura e generalidades

terça-feira, 1 de abril de 2014

Uma história de redenção: o golpista de ontem pode ser o democrata de amanhã

Enquanto os mais ativos blogues lembram neste ano a famigerada quartelada de 1964, ocorrida há exatos 50 anos, lembro de uma breve história que poderia ter sepultado a biografia de um então político de meia idade: ninguém menos que Ulysses Guimarães. Os relatos históricos dão conta de que ele foi um dos políticos da época que apoiaram a deposição do presidente João Goulart. Mas a biografia registra que, logo no início do regime militar, ele passou para a oposição. Ulysses se filiou ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), tão logo o bipartidarismo foi instalado pelo regime. O MDB foi concebido pelo regime militar para ser uma espécie de oposição consentida, mas acabou virando oposição de fato, abrigando desde direitistas moderados (como o próprio Ulysses) a comunistas destituídos de um partido legalizado e registrado.

A trajetória democrática de Ulysses Guimarães a partir da passagem para a oposição ao regime militar é praticamente irretocável. Foi anticandidato a presidente da República em 1973, como uma forma de protesto contra o regime e a própria eleição, que foi indireta. Seu candidato a vice naquele ano foi um ex-governador de Pernambuco: Barbosa Lima Sobrinho. Como liderança do MDB, participou de todas as campanhas pelo retorno do país à democracia. No fim da década de 1970, participou da campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita a todos os opositores do regime, que possibilitou o retorno ao Brasil dos exilados políticos. Na década seguinte, esteve na linha de frente do movimento Diretas Já, que reivindicou eleições diretas para presidente da República. Depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, tentou novamente ser candidato a presidente numa eleição indireta marcada para 1985, mas o rebatizado PMDB não era (e não é) como o combativo MDB das duas décadas anteriores. Políticos menos idealistas tinham tomado conta da linha de frente do partido, inclusive alguns ex-aliados do regime militar. A ponto de o PMDB ter lançado para a eleição indireta a chapa vencedora que foi composta por Tancredo Neves (o mesmo que foi primeiro-ministro do curto parlamentarismo instalado para tirar poderes governamentais do presidente João Goulart) e seu vice José Sarney, ex-Arena e ex-PDS, ambos partidos aliados do regime militar, e ex-PFL, dissidente do PDS. Tendo presidido a Câmara dos Deputados entre 1985 e 1989, Ulysses substituiu interinamente várias vezes o presidente José Sarney, titular do cargo após a morte de Tancredo Neves. Mas acabou se destacando mais do que nunca entre 1987 e 1988, quando presidiu a Assembleia Nacional Constituinte, mediando os debates e conflitos entre as várias correntes de constituintes e, de certa maneira, na própria sociedade brasileira que se fez presente nos debates e reivindicações ao longo daquele período da Constituinte. Mesmo com a excelente biografia política, o peso negativo do PMDB (que não era mais o MDB velho de guerra, como disse antes) e a indicação de alguns ministros do Governo Sarney cobraram um preço alto em 1989, ano seguinte à promulgação da Constituição. Ulysses teve apenas 4,4% dos votos no primeiro turno da eleição de presidente da República. Em 1990, não disputou a presidência da Câmara dos Deputados e ainda perdeu a presidência do PMDB para Orestes Quércia. Voltou para a linha de frente dos movimentos democráticos em 1992, durante o processo de impedimento do presidente Fernando Collor. Ulysses chegou a pedir que a votação do impeachment na Câmara fosse aberta, não secreta.

O êxito na destituição de Fernando Collor acabou servindo como uma metáfora perfeita para a redenção política de Ulysses Guimarães. Um dos apoiadores de baixo escalão do golpe contra João Goulart foi, décadas depois, um dos principais articuladores da destituição de outro presidente da República, desta vez por vias democráticas e tudo dentro da lei. E teve aquela longa trajetória de atitudes pela construção de um regime democrático, entre uma queda de presidente e outra. O golpista de ontem pode ser o democrata de amanhã.

Sem dúvida, figuras como Ulysses Guimarães fazem falta nesses dias sombrios da atualidade.

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