Política, cultura e generalidades

terça-feira, 4 de março de 2014

A versão broxante do RoboCop


Filmes policiais não são arte. São feitos para divertir. Alguns não conseguem nem isso. No máximo, viram exóticos passatempos. Esse RoboCop do Padilha é um espécime desse tipo de filme. O filme não empolga em momento algum. Padilha extirpou desse filme de 2014 um dos poucos atrativos do filme de 1987: a história de libertação de um policial irreversivelmente abatido, refeito como uma criatura 90% robótica sem lembranças do passado mas que consegue fazer seu resto de humanidade subjugar a robótica. Nesse filme, não há libertação. A demonstração frankensteiniana feita para Alex Murphy do pouco de órgãos humanos que lhe sobraram (basicamente o cérebro, o rosto, os dois pulmões, a mão direita e talvez algo mais não visível ao expectador) é uma das coisas mais broxantes da história do cinema. Neste filme não há libertação. Nem para Alex Murphy, nem para o espectador, que encara durante todo o filme todos os piores clichês de filmes policiais americanos e o discurso intelectualóide de Padilha, que ainda teve a pachorra de se dizer um liberalista clássico no programa Roda Viva. A trama do filme é tão amarradinha ao discurso de Padilha que funciona como um reloginho, até desembocar num final pra lá de previsível.

Samuel L Jackson está nesse filme só pra fazer o papel do sujeito que quer ver os policiais dróides da OmniCorp atirando friamente nas ruas americanas como fazem fora do país. Além, obviamente, pro Padilha poder soltar sua opinião "liberal clássica" contra a posição republicana da Fox News, cujos apresentadores inspiraram o personagem do Samuel, segundo Padilha diz em toda entrevista.

Só que o máximo que Padilha conseguirá com essas entrevistas é fechar a porta para ele na 20th Century Fox. Se voltar a fazer algum filme americano, terá que ser na concorrência. Talvez na própria MGM ou na Columbia, que bancaram esse RoboCop.

Tem mais. Padilha fala da Fox News como se aqui mesmo na terra dele não houvesse apresentadores de noticiário policialesco semelhantes ao personagem do Samuel. Basta sintonizar algumas TVs abertas do Brasil em alguns horários. É uma temeridade o Padilha ser tão incisivo na política doméstica americana. Pode ser uma revanche pra cima dos americanos que se meteram na política doméstica brasileira ao longo da história, mas se um dia mudar a linha do governo americano, talvez nem o visto de entrada para os EUA o Padilha consiga mais.

Parece que, diante do discurso do Padilha, o público americano já antecipou em sua mente o teor desse filme, e não deu a bilheteria que os produtores esperavam. Se não fosse o mercado externo, esse filme não arrecadaria nem os US$ 100 milhões gastos com ele. Talvez prevendo o fiasco doméstico, os produtores não assinaram contrato para continuações. Nem com José Padilha nem com o ator principal Joel Kinnaman.

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