Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Dom Eugenio ajudava perseguidos políticos das ditaduras militares, exceto católicos tidos como marxistas


O tema já foi abordado aqui no blogue em outras postagens. Mas agora trago aqui o fato de que a capa desta semana da Carta Capital tem uma manchete maliciosa que promete muito, mas não traz o que promete. A manchete de capa é esta: "Exclusivo: Dom Eugênio Salles envolveu-se na prisão de opositores da ditadura, revelam arquivos do SNI". Só que lá dentro da revista o que se vê é que o SNI não apontava Dom Eugenio como alguém que prendia os outros, assassinava ou torturava, como faziam alguns agentes do Governo Federal. Apontava, sim, que Dom Eugenio barrou declarações escancaradas da CNBB contra o regime e que, a quem ia a ele pedir ajuda para encontrar parentes desaparecidos políticos, ele mandava recorrer a quem de fato mandava no país: os militares. Nada que já não tivesse sido revelado por críticos daquele regime, alguns deles apontadores das atitudes de Dom Eugenio em esconder perseguidos políticos dos regimes militares da América Latina.

Dom Eugenio tinha o hábito de ajudar perseguidos políticos das ditaduras militares. Quase quebrou a Arquidiocese do Rio de Janeiro alugando imóveis para esconde-los. E embarcou vários perseguidos em seu próprio carro oficial (que não era abordado pelas blitzes das Forças Armadas ou das polícias) para embarca-los direto no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro para o exílio. A mesma generosidade não era dispensada aos desaparecidos políticos que fossem católicos ou de famílias católicas. Dom Eugenio combatia a longa influência marxista dentro da própria Igreja. Talvez não se importasse com o destino daqueles que Dom Eugenio provavelmente considerava como marxistas, traidores da Igreja. Mandava os parentes procurarem os militares, e só. Era mais fácil ele se importar com o destino dos marxistas não católicos.

Diplomacia pode ser a solução ideal para cuidar de questões espinhosas no mundo do poder civil. Mas pode ser um desastre quando aplicada por autoridades eclesiásticas. Dom Eugenio tentou o diálogo diplomático com um regime que censurava pronunciamentos de Paulo VI na mídia brasileira. Acabou não conquistando o coração nem dos tradicionalistas (que preferem elogiar um antecessor como Dom Sebastião Leme e criticam o apoio de Dom Eugenio à RCC), muito menos de católicos mais abertos e diretos com os diferentes, sem os formalismos da diplomacia. Se Dom Eugenio tivesse sido mais bispo e menos diplomático, não teria ganho a alcunha jocosa da manchete interna de Carta Capital: "Dom Eugênio, agente duplo". Menos, Carta, menos. Na verdade, Dom Eugenio queria ser apenas um gestor da Arquidiocese. Ele deixou uma Arquidiocese mais pujante que aquela que encontrou. Com menos fiéis, porém mais adeptos da doutrina, bem ao gosto do então futuro papa Bento XVI. O trato com os padres do Rio de Janeiro refletia isso. Ele era distante dos padres de fora de seu círculo de amizade, mas deixava os padres trabalharem, mesmo os de atitudes diferentes. Menos os que flertassem com o marxismo. Chegou a ameaçar desligar do clero padres que participassem do Grito dos Excluídos, evento que acontece em outras cidades brasileiras, mas nunca aconteceu no Rio de Janeiro. Nem mesmo nas gestões de Dom Eusebio e Dom Orani.

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