Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Apresentação de Bruce Springsteen no Rock in Rio consagra som inspirado nos imigrantes e nos trabalhadores americanos


Os comentários que tenho ouvido nas últimas horas é que muita gente que viu a apresentação de sábado (na verdade de ontem, por ter começado por volta de meia-noite e dez) de Bruce Springsteen no Rock in Rio pela TV diz que não conhecia o Bruce, mas se soubessem que as apresentações dele ao vivo são assim, teriam ido. Bruce atraiu até a atenção de quem é totalmente arredio ao Rock in Rio e seus apoiadores e patrocinadores. Como Marco Plfd, no portal G1:

Esse RR é um porre, odeio a ideia de a Globo ganhar dinheiro manipulando, como sempre... Mas o FATO É: BRUCE fez o melhor show que vi pela televisão. Caso soubesse que seria assim... COM CERTEZA, teria ido.

É difícil para quem não acompanha ao menos por alto a carreira de Bruce Springsteen conhecer e apreciar a sua música. Com a mídia de massa falida que temos hoje em dia, isso é possível apenas pela Internet. Se pesquisarem um pouco, descobrirão que, para entender a música de Bruce, é necessário ir lá atrás, nas origens dele. Bruce é filho de um pai com ascendência holandesa e irlandesa. A mãe dele tem ascendência italiana. Bruce é, portanto, descendente de uma enorme gama de imigrantes europeus que foram para a costa leste americana nos séculos XIX e XX fazerem a vida, muitas vezes como simples trabalhadores ou começando com pequenos negócios. O rock de Bruce Springsteen é influenciado pela musicalidade desses imigrantes europeus. O próprio país foi fundado por imigrantes. Os imigrantes ajudaram a forjar a nacionalidade e a cultura americana de raiz, que difere daquela que é exportada para o mundo (hamburguer, Coca-Cola, filmes violentos, etc). Se prestarmos bem atenção na banda de Bruce, a E Street Band, veremos que ela tem muito em comum com aquelas bandas que participam de desfiles cívicos (aqueles que tem até carros alegóricos) que acontecem periodicamente nas cidades americanas. Desfiles em que são exaltados fatos importantes na história local e são apresentados aspectos culturais dos imigrantes. As bandas desses desfiles utilizam toda sorte de instrumentos musicais. A E Street Band se apresentou no Rock in Rio com 16 integrantes (inclusive as mulheres do vocal de apoio), utilizando diversos instrumentos musicais, como piano, teclado, violino, saxofone, naipes de metais (inclusive um trombone), violões, guitarras, baixo, bateria e instrumentos percussivos diversos quase todos também utilizados pelas colônias de imigrantes europeus nos desfiles cívicos nos Estados Unidos.

Fora o evidente patriotismo nada ufanista, o que mais inspira as músicas de Bruce são as pessoas simples. Não os governantes, os generais e os dirigentes corporativos. Os operários americanos são tema recorrente em várias músicas de Bruce. Outras pessoas que passam situações difíceis também viram temas de músicas. O disco The Rising (2002) é todo inspirado no trabalho dos bombeiros que trabalhavam em Nova York por ocasião dos ataques de 11 de setembro de 2001. E tem mais doses de inspiração de sons de imigrantes, como os imigrantes árabes, ainda mais discriminados nos Estados Unidos a partir daqueles dias. Diante daqueles problemas, Bruce fez uma abordagem oposta à feita pelo presidente da época, George W. Bush. Diante da dor, mais solidariedade, menos preconceitos, menos discriminação.

Na apresentação de sábado passado, a base foi outro disco fundamental da carreira de Bruce. Exatamente o mais famoso deles: Born in the U.S.A.. Aquele cuja música-título faz a defesa dos soldados americanos forçados a ir contra a vontade para a Guerra do Vietnã. Devido à derrota na guerra, os sobreviventes que voltaram para os Estados Unidos acabaram discriminados pelo governo e pela população. Bruce saiu em defesa deles. O restante do disco tem aquele tom nada ufanístico. Mesmo assim os ignorantes até hoje tentam desvirtuar o disco para aquela patriotada. O próprio Bruce teve que proibir que a campanha de reeleição do presidente Ronald Reagan utilizasse músicas do disco.

Antes do Rock in Rio, a reportagem do Fantástico questionou Bruce sobre a rede internacional de espionagem montada pelo governo americano na gestão de Barack Obama, presidente que Bruce apoiou nas duas eleições. Bruce disse que não tinha ainda o que dizer a respeito, talvez ainda mal informado sobre o assunto. Mas provavelmente já mostrando contrariedade com o que os asseclas de Obama andam fazendo. Se fosse no Brasil, a corja governista já estaria chamando Bruce de coxinha, traíra, PiG, essas frescuragens.

Além de tocar todas as músicas do disco Born in the U.S.A., Bruce e sua trupe tocaram algumas músicas do recente disco Wrecking Ball (2012) e de vários outros discos de todas as quatro décadas de carreira de Bruce. Mas as 2 horas e 40 minutos da apresentação começaram com Sociedade Alternativa, aquele sucesso de Raul Seixas, cantado em português, mesmo. Foi dito por parte da imprensa que Bruce estava procurando canções representativas de protesto de artistas dos três países onde ele tocou neste mês de setembro na América do Sul: Chile, Argentina e Brasil. Convenhamos: Sociedade Alternativa tem um potencial maior que qualquer outra música brasileira de protesto composta em qualquer gênero musical, antes ou depois dela. Mesmo dentro do rock nacional feito posteriormente. Praticamente toda a carreira de Bruce Springsteen foi revisitada, até chegarmos à última música da noite: Twist and Shout, a música de Phil Medley e Bert Russell que ficou mais famosa na gravação dos Beatles que apareceu até naquela cena do desfile cívico de Curtindo a vida adoidado (olhe os desfiles cívicos aqui de novo!). E era evidente que Bruce estava feliz em estar tocando e cantando pela primeira vez no Rio de Janeiro. Ele já deveria ter sido chamado lá atrás, no Rock in Rio de 1985!

Quem viu e ouviu a fanfarra de Bruce Springsteen e da E Street Band na Cidade do Rock não esquecerá jamais. Quem viu pela TV e não conhece a obra do Bruce, corra atrás. O homem prometeu voltar ao país, inclusive para tocar músicas que ficaram de fora do Rock in Rio. Os fãs (novos ou antigos) cobrarão!

Resenha no G1
Galeria de fotos

P.S: Tem gringo que vem para o Rio de Janeiro cantar música de Raul Seixas. Outros, na hora de cantar (???) música de brasileiro, preferem lelek lek lek lek... Há gringos e há gringos. Muito diferentes uns dos outros.

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