Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Lembranças de Alceu Valença estourando na fase Ariola

Se no passado da música brasileira houve uma gravadora que fez o mesmo papel feito hoje em dia pela Biscoito Fino de lançar somente discos de MPB com faro mais artístico que comercial, essa foi a Ariola. A Ariola brasileira era uma subsidiária do grupo alemão Bertelsmann. Foi fundada pelo produtor brasileiro Marco Mazzola, contratado pelo grupo Bertelsmann para a tarefa. Os primeiros discos da Ariola foram para as lojas em 1980. O elenco da gravadora era composto por revelações e também por nomes consagrados tirados das maiores gravadoras. Apesar do elenco de estrelas consagradas e dos ascendentes, a Ariola afundou em dívidas. A PolyGram ficou sabendo e propôs comprar toda a Ariola brasileira, incluindo as dívidas, os fonogramas e os contratos em vigor com o elenco. O grupo Bertelsmann aceitou vender a Ariola para a PolyGram em 1981, exigindo apenas que a marca Ariola (que lhe pertencia desde a década de 1970) fosse utilizada somente até 1983. Daí porque os discos da Ariola (que passaram a ser prensados e distribuídos pela própria PolyGram, que manteve Mazzola à frente da empreitada) passaram a sair em 1984 com o selo Barclay (não mais Ariola), até que em 1987 a PolyGram dissolveu a Barclay, antes incorporando em seu elenco os contratados da Barclay, como Elba Ramalho. O grupo Bertelsmann, que já usava a marca Ariola fora do Brasil, comprou a gravadora americana RCA em 1986 e transformou a RCA brasileira em BMG-Ariola no mesmo ano, mais tarde renomeada para apenas BMG (sigla que significa Bertelsmann Music Group), situação mantida até 2004, com a fusão da BMG com a Sony Music, dando origem à Sony-BMG, esta transformada na atual Sony Music em 2008.

Depois deste histórico da Ariola e da RCA/BMG, chegamos ao nosso assunto: a fase Ariola de Alceu Valença. Ele iniciou sua carreira no Rio de Janeiro em 1971, fazendo dupla com seu incentivador e amigo Geraldo Azevedo. Os dois participaram de festivais de MPB e chegaram a gravar em 1972 um LP juntos, Quadrafônico, que é o primeiro da carreira de Alceu. Ainda nos anos 70 Alceu gravou um disco na Continental e três na Som Livre (o último em 1977, Espelho Cristalino, que trazia a faixa-título e outro sucesso, Agalopado). Depois deles, Alceu ficou sem gravadora no Brasil. Isso apesar de apresentações lotadas em todo o país. "Eu me sentia um exilado artístico, peguei uma fama terrível de maldito", contou ele, que topou fazer uma turnê na França, Alceu Valença em noite de au revoir. Chegou a gravar um disco naquele país, Saudade de Pernambuco, pela Society France de Produción. Na volta ao Brasil, lançou num festival da TV Tupi de São Paulo uma música inédita, Coração bobo, com o auxílio luxuoso de Jackson do Pandeiro, mas foi desclassificado. Apesar do contratempo, Alceu recebeu no retorno ao Rio uma notícia bombástica de sua empresária. A apresentação de Alceu no festival da Tupi chamara a atenção de Marco Mazzola, que na época estava montando o elenco de uma nova gravadora: a Ariola.

De 1980 a 1984, Alceu Valença se tornou um grande vendedor de discos. A fase Ariola de Alceu Valença foi a única em que ele conseguiu ao mesmo tempo grande vendagem de discos, exposição maciça na mídia de massa, reconhecimento da crítica e apresentações em estádios e ginásios lotados em todo o Brasil, não apenas no Nordeste. Por percalços da indústria fonográfica brasileira (percalços alvos de críticas de Alceu desde os anos 70), essa fase Ariola era a única de Alceu que não tinha todos os seus discos lançados em CD. Apenas Coração bobo (1980) e Cavalo de pau (1982) haviam sido lançados no formato digital. Pois eis que, no início deste mês, os dois discos foram remasterizados e relançados de forma avulsa, em "edição limitada" (segundo a Universal Music). Os outros três discos da fase Ariola apareceram agora pela primeira vez em CD, acondicionados numa caixa chamada Três Tons de Alceu Valença. Além da remasterização, os cinco discos saem com reproduções fiéis da arte gráfica dos LPs originais.

"Eu fazia música como quem faz cinema. Cada um desses discos tem uma característica, um timbre diferente".

Ter acesso a esses cinco discos era um sonho antigo. Meu pai era um fã de Alceu Valença, pernambucano como ele. Só que meu pai comprou apenas um LP de Alceu. Uma coletânea lançada em 1985, chamada Os 14 Maiores Sucessos de Alceu Valença. Até hoje tenho dúvida se quem ouviu mais aquele disco fui eu, meu pai ou minha mãe. Apesar de ter curtido aquele disco por muitos anos, aquela era uma coletânea tecnicamente deficitária, porque várias faixas tiveram trechos amputados, para que coubessem 7 faixas em cada um dos lados do LP. Os caras da PolyGram lançaram essa coletânea com o selo Elenco (outro excelente selo que eles compraram), mas tiveram a pachorra de editar as faixas Dia Branco (a melhor música de Alceu que conheço), Sol e chuva e Espelho cristalino. Quase todas as faixas daquele vinil foram tiradas dos discos da Ariola, exceto Sol e chuva, Espelho cristalino e Agalopado, tiradas de LPs da Som Livre. Outras músicas de Alceu Valença eu só conheci em festas no Rio de Janeiro e com a audição atenta das boas rádios da cidade, pouco a pouco extintas até os dias atuais. Mas agora, diante dos cinco discos da Ariola, posso comentar sobre a melhor fase (discograficamente falando) de Alceu Valença.

Coração bobo (1980) foi o disco que tornou Alceu Valença de fato conhecido em todo o Brasil.

"Foi feito ainda sob a ditadura, com letras metafóricas, falando da solidão das capitais".

Além da música-título mostrada naquele festival da TV Tupi meses antes, o disco tem outras faixas autorais como Na primeira manhã, e também duas regravações de Luiz Gonzaga: Vem morena e Cintura fina. É um disco escancaradamente nordestino. Vendeu 450 mil cópias. Naquele mesmo ano, Alceu Valença gravou também na Ariola a música A Foca, para a trilha sonora do especial global A Arca de Noé, em que vários frequentadores das paradas de sucessos gravaram canções de Vinicius de Moraes (falecido naquele ano) voltadas para as crianças.

Cinco sentidos (1981) foi gravado e lançado no ano em que, de fato, Alceu Valença passou a fazer apresentações para grandes plateias. Uma delas a do Dia do Trabalhador, no Riocentro, em 1º de maio. Militares preparavam um atentado terrorista contra o evento, mas uma das bombas explodiu no colo de um deles, num carro Puma no estacionamento, bem na hora em que Alceu Valença estava cantando no palco. Outra bomba foi colocada na casa de máquinas do Riocentro, mas não explodiu.

"Nesse disco eu estava dizendo de onde vinha. Era a minha poética, as coisas que me formaram".

"Cinco sentidos é um disco de revelações".


O disco vendeu 150 mil cópias (menos que o anterior) e foi mal executado nas rádios de fora do Nordeste. Enquanto isso, no Nordeste houve pelo menos três sucessos deste disco: Cabelo no pente, Arreio de prata e Guerreiro. Mas eu lembro de ter ouvido o forró Fé na perua até em festas juninas no Rio de Janeiro. Tirana eu lembro de ter ouvido bastante, não lembro onde. Alceu Valença reconhece que, com este disco, passou a representar uma vertente do rock sem ser rock. Uma definição bem verdadeira para toda a sua fase na Ariola. Não é à toa que integrantes da geração mangue beat afirmam que Alceu Valença foi uma das maiores influências do movimento. A última faixa do disco (Seixo Miúdo) foi composta em 1969 nos Estados Unidos, onde Alceu estudava, e sob o impacto da chegada de astronautas americanos à Lua.

Cheguei a receber não lembro de quem uma cópia em cassete de Cinco sentidos, mas o cassete estava danificado. Lembro de ter ouvido apenas trechos da primeira música Quando eu olho para o mar e de Seixo Miúdo. O cassete foi jogado no lixo, quando se tornou inaudível.

A consagração definitiva de Alceu Valença veio com Cavalo de pau (1982), o terceiro disco da fase Ariola.

"Aquela era uma obra completa, acrescentar outras faixas seria como botar bigode em uma pintura".

"Esse disco só saiu do jeito que deveria sair porque o Mazzola tinha um respeito total pelos artistas".

"O departamento comercial reclamou que o LP só tinha oito faixas, disse que não ia vender".


Cavalo de pau é um disco genial. Brasileiro, regionalista e universal ao mesmo tempo. Em mais uma atitude ousada, Alceu Valença resolveu lançar o disco com apenas oito faixas em menos de 28 minutos (somando os dois lados do vinil). Disseram a ele que o disco não venderia. Alceu insistiu, e o disco foi pras lojas só com as oito faixas. De fato, o disco é um clássico da música brasileira. Além de ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas, pelo menos cinco faixas dele (de oito!) foram sucessos nacionais. O lado 1 inteiro estourou: Rima com rima, Tropicana, Como dois animais e Pelas ruas que andei. A faixa-título (a terceira do lado 2) também estourou. O disco termina na faixa Maracatu, parceria com o poeta pernambucano Ascenso Ferreira. Com este disco, Alceu Valença passou a fazer apresentações para estádios com até 40 mil pessoas.

Anjo avesso (1983) é um disco totalmente influenciado por uma longa temporada de Alceu Valença em Olinda. É um disco baseado totalmente na musicalidade daquela cidade. É um disco teatral, na definição de Alceu. Ele mesmo diz interpretar personagens diferentes em cada música, vários deles personagens da cultura local. Alceu chega a mudar a voz em várias faixas.

"Um disco teatral, em que canto, com outras vozes que não as minhas, as canções que fiz para Olinda".

O disco é aberto com a bela Marim do Caetés, seguida da clássica Anunciação, que acabou sendo cantada até nos comícios do Diretas Já, apesar de não ter sido feita para o movimento. Anunciação é uma música mais próxima de temas espirituais. Já vi até um padre dizendo que esta é a música preferida dele. Pra contrastar com Anunciação, vem logo a seguir o sucesso Rouge Carmim, de temática declaradamente profana (é aquela do refrão "a cor do pecado é rouge carmim"). Balança coreto foi composta especialmente para um grupo teatral local. A faixa-título fala de um anjo que finge ser bom, mas leva embora a mulher amada do protagonista da história.

Mágico (1984) é um caso à parte na melhor fase da discografia de Alceu Valença. Melhor deixa-lo começar a narrativa.

"A Ariola foi comprada pela PolyGram e o presidente da companhia, Mr. Van Dyke, me convidou para gravar um LP na Holanda. Fomos direto para o Wisseloord Studios, na cidade de Hilversum. Lembro que a banda inglesa Def Leppard também estava gravando por lá. O álbum traz nove músicas, entre elas “Dia Branco”, “Casaca de Couro”, “Cambalhotas” e um rock repente, “Que grilo dá”."

"Não tínhamos a menor expectativa de ir à Holanda para gravar. Algumas das músicas fiz no estúdio".


Mágico foi o único disco de Alceu Valença que saiu com o selo Barclay, ao invés do selo Ariola utilizado nos outros quatro discos deixados na gravadora. É também o disco mais universalista da fase Ariola. Universalista na sonoridade, flertando com o pop e o rock. Se Alceu diz que Que grilo que dá é um rock repente, também podem ser consideradas rocks as faixas Dia branco e Solidão, esta uma balada, ambas os dois maiores sucessos do disco. Mas há outros sucessos no disco: Cambalhotas, Casaca de couro e A menina dos meus olhos. Não lembro da apresentação de Alceu Valença no primeiro Rock in Rio, mas imagino que ele tenha tocado naquele palco Que grilo que dá e os sucessos de sua carreira. Relatos garantem que, tanto no Rock in Rio como no disco Mágico, Alceu Valença cantou para as multidões de todo o país sem abrir concessão alguma e sem abdicar de suas convicções e da defesa da cultura pernambucana e nordestina em geral. Alceu Valença sempre foi um dos melhores e mais dignos artistas nascidos neste país.

A fase Ariola acabou quando Alceu Valença entrou na RCA brasileira (mais tarde BMG-Ariola) em 1985, pela qual gravou três discos de estúdio com faixas inéditas até o fim da década, além de um disco ao vivo, Oropa, França e Bahia (1988), gravado no extinto Scala 1 no Rio de Janeiro. Disco que trazia a inscrição "tropical rock" logo na capa, dentro daquela lógica genial do "rock sem ser rock" de Alceu Valença. Só que Alceu Valença encontrou dificuldades na RCA. A partir de 1985, paralelamente ao auge popular e comercial do rock brasileiro, o brega começava a dar as cartas na indústria fonográfica, e a RCA foi de longe a gravadora mais afetada. Até contratados de MPB da casa gravaram sucessos de autores bregas. Alceu, não. Ele manteve sua coerência. Resultado: Estação da Luz (1985), que foi talvez o primeiro disco de Alceu a contar com dois frevos (gravados ao vivo) e era um disco mais MPBista que Mágico, foi menos divulgado no centro-sul do país. Rubi (disco de 1986 gravado no ano em que Alceu passou a morar parte do tempo do ano no Leblon e outra parte na Rua de São Bento, em Olinda) e Leque moleque (disco de 1987 cheio de referências urbanas) tocaram muito pouco. A faixa Bobo da corte (que abre Leque moleque) só teve execução nacional porque foi colocada na trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Nesta fase RCA/BMG, Alceu Valença gravou também a faixa Cópias mal feitas para a trilha sonora da novela Roque Santeiro, além de ver lançado na sua antiga gravadora Barclay (leia-se Ariola) em 1986 um disco ao vivo gravado no Festival de Montreux. Depois das fases Ariola e RCA/BMG, Alceu Valença continuou e continua fazendo sucesso, gravando bons discos e fazendo apresentações ao vivo para plateias fiéis. Mas nada superará aquela fase mágica (o nome do disco Mágico é até providencial nesse sentido) na Ariola, fase em que Alceu Valença escreveu definitivamente seu nome na história da música brasileira como figura de primeira grandeza. A partir desses discos, Alceu Valença ajudou a compor a trilha sonora da muito celebrada e documentada década de 1980.

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2 comentários:

  1. No começo da carreira, Alceu Valença havia ido, com um amigo, para a casa do músico Jackson do Pandeiro, figura prestigiada da música pernambucana, mostrar sua música. Jackson os recebeu com muita desconfiança, por causa da aparência hippie dos dois jovens. No entanto, quando Alceu começou a tocar violão e cantar, Jackson ficou encantado com o profundo conhecimento da cultura local expresso por Alceu. Acabou sendo um apoio e tanto.

    Outra curiosidade é que a influência roqueira da música de Alceu Valença favoreceu que sua música fosse tocada na Rádio Fluminense FM em sua fase áurea. Quem leu A Onda Maldita, sabe: a Maldita tocou muita MPB, seja Alceu, Belchior, Zé Ramalho, Caetano, Gil, Milton, Clube da Esquina, Lira Paulistana. Isso na fase áurea que infelizmente alguns detratores definem como "fase jaquetão" (alusão a roqueiros radicais que só vestiam jaquetas ou coletes de couro).

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  2. A Fluminense FM tinha, na verdade, várias vestimentas. Todas integrantes da cultura geral dos artistas que a rádio tocava. Usava, sim, o jaquetão e o colete de couro preto usados por alguns roqueiros, mas às vezes vestia a casaca de couro com cor da terra seca do sertão, ao tocar músicas de Alceu Valença e de outros nordestinos da MPB.

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