Política, cultura e generalidades

quarta-feira, 5 de junho de 2013

'Faroeste Caboclo' é denso, cruel, pesado e não abre concessões. Por isso é cinema de verdade


Não sou parte da elite cultural deste país, não sou uma figura ligada à história do rock brasiliense nem tenho bons contatos com qualquer um deles. Por isso, como pobre reles mortal que sou, só conferi Faroeste Caboclo quando o filme foi lançado comercialmente.

Gente, esqueçam Somos Tão Jovens, que apesar de também ter estreado em maio e ter cumprido a missão de reconstituir os anos de Renato Russo em Brasília, no fundo sofre aquela síndrome de história juvenil com atores juvenis, tipo Malhação. Inclusive atenuando aspectos da personalidade de Renato, do relacionamento com a família (foi tratado como um bom menino quase o tempo todo) à homossexualidade. Não queiram comparar Somos Tão Jovens com Faroeste Caboclo. É uma enorme injustiça com a equipe que fez esse (desde já) antológico filme inspirado na canção homônima. Faroeste Caboclo é um filme muito, mas muito superior. É denso, cruel, pesado e não abre concessões. Por isso é cinema de verdade. E olha que tinha tudo para ser mais um entojo de filme televisivo, pois tá lá a assinatura da Globo Filmes na coprodução, com a vinheta animada da empresa logo de cara, nos créditos iniciais, e ainda tem pelos menos uns quatro atores no elenco com várias novelas da Rede Globo no currículo. Parece que os produtores e o diretor René Sampaio deixaram os executivos globais bem longe, para poderem fazer um filme digno dos sonhos de todos os que ouviram Faroeste Caboclo nos anos 80 já pensando "puxa, essa música daria um filme". Entre eles o próprio René.

Tirando os pais de João, os vários amigos de Maria Lúcia e os capangas de Pablo e de Jeremias, pode-se enumerar um pequeno grupo de personagens que conduzem toda a trama. Alguns deles (inclusive os três que centralizam a trama) já estavam na música de Renato Russo.

O protagonista João de Santo Cristo foi muito bem interpretado por Fabrício Boliveira. Fabrício optou por imprimir um jeito frio e vingativo para o personagem, no que acertou em cheio. Por causa do jeitão de western spaghetti imposto ao filme pelo diretor, fica impossível não lembrar do recente Django que Jamie Foxx interpretou em Django Livre. Mas a comparação acaba aqui. Os filmes são diferentes, as histórias são diferentes, as situações históricas são diferentes (o sul escravocrata dos EUA no século XIX e a cidade de Brasília nos anos 70 e 80 do século XX) e as motivações dos protagonistas são diferentes, embora ambos os personagens sejam bem vingativos e precisos no uso de armamentos diversos. A chegada de João em Brasília num ônibus fabricado nos anos 50 (atenção, busólogos!) é das coisas mais bem feitas do filme. Não esqueceram de colocar a iluminação noturna de Natal na Esplanada dos Ministérios (iluminação citada na música), com o ônibus passando em baixo. Em outra tomada, dá para ver o ônibus passando num viaduto, e bem embaixo do viaduto passa na mesma hora o Fusca de Maria Lúcia, bem antes dos personagens se conhecerem. João passou quase o filme todo dividido entre a vida de traficante e a de carpinteiro, só que a de carpinteiro acaba virando apenas fachada para a de traficante.

Maria Lúcia ficou a cargo de Ísis Valverde, aqui há milhares de anos-luz de distância das periguetes que andou interpretando nas novelas globais. Por falta de maiores detalhes do perfil de Maria Lúcia na música, tiveram que criar isso para o filme. Maria Lúcia é estudante de arquitetura, e mora no apartamento do pai, que é senador. Ao que tudo indica, essa Maria Lúcia não tem muito convívio com o pai. Aparece falando pouco com ele, e mesmo quando os dois estão em casa, ela prefere ficar sozinha no quarto estudando, ou descansando, ou fumando maconha escondida com alguma amiga (dificilmente se achará no cinema nacional uma personagem que fume mais maconha que a Maria Lúcia desse filme) ou se encontrando secretamente com João, que aparece na janela do apartamento. Ao que tudo indica, Maria Lúcia passa quase o filme todo distante, sonhando com uma vida melhor que a que leva. Chega a ir embora sozinha para casa, depois de ter passado uma noite com os amigos (alguns tocando violão) bem em frente ao Palácio do Planalto.

Jeremias ficou com o também ator global Felipe Abib, também em atuação magistral, tal como Fabrício. O antagonista de João é mostrado como o grande traficante de maconha e cocaína para a juventude do Plano Piloto de Brasília entre o fim dos anos 70 e início dos 80, abastecendo a clientela em tudo quanto é festa, show e rockonha da cidade. Jeremias é extremamente orgulhoso de seu "negócio". Duvidar da qualidade da droga dele é pior que xingar sua mãe ou prometer currar a sua avó. É ganhar um inimigo disposto a acionar toda a quadrilha só para te trucidar. João se torna inimigo de Jeremias não só por reprovar a dita "qualidade" de sua droga mas também por ser o principal sócio de Pablo, concorrente de Jeremias que tem sua base na periferia do Distrito Federal.

Pablo é o personagem do ator César Troncoso. Pablo foi mantido como o tal primo peruano de João e que traz muito contrabando da Bolívia. Torna-se o parceiro de João na plantação e no tráfico de drogas no Distrito Federal. Tem um forte esquema de domínio sobre o pequeno comércio informal da localidade pobre onde vive, cobrando favores e "impostos". César Troncoso sacou um portunhol sensacional para o personagem.

O ator Antonio Calloni ficou com o mais destacado personagem criado para o filme: o do policial corrupto Marco Aurélio, que acoberta o traficante Jeremias, ajuda a tirar os traficantes rivais do mercado de drogas de Brasília e ainda faz alguns outros serviços sujos encomendados por Jeremias. Marco Aurélio só abaixa a voz diante do único figurão da política a aparecer no filme: o senador Ney, no único encontro dos dois personagens.

Ney é outro personagem exclusivo do filme. Trata-se do pai de Maria Lúcia. Só aparece no filme em cenas internas em seu apartamento em Brasília e em uma única cena externa acompanhado de Maria Lúcia e conhecendo pela primeira vez João de Santo Cristo, já bem desconfiando dele. O senador Ney também não dialoga muito com a filha. Quando está no apartamento, fica sozinho na sala, lendo ou ouvindo música, sempre música orquestrada, em contraste com o punk rock que Maria Lúcia ouve bem alto no fone de ouvido no quarto. Ney é o trabalho póstumo do ator Marcos Paulo.

Entre os outros personagens, dá para citar, além dos amigos de Maria Lúcia e dos capangas de Jeremias e de Pablo, o próprio João de Santo Cristo ainda no sertão da Bahia. Mais precisamente em Santo Cristo (Santo Cristo é o nome da cidadezinha, não o sobrenome da família do João). Vemos João criança e depois adolescente, interpretado primeiro por um ator mirim e depois por um ator adolescente, irmão mais velho do ator mirim (dá para deduzir isso lendo os créditos). Vemos também o pai de João (que tem o mesmo destino citado na música) e a mãe de João.

Deve-se exaltar alguns aspectos técnicos do filme. A fotografia é providencial. Provavelmente preferiram reproduzir uma cidade de Brasília soturna e escura, como talvez tivesse sido a cidade de verdade naquela época. Todas as locações do filme estão precariamente mal iluminadas, embora tenham tomado o cuidado de fazer uma boa captação de imagens, para ser possível distinguir tudo em cena, apesar da pouca luz. Estou me referindo à luz das ruas e dos estacionamentos à noite, seja nas miseráveis comunidades nas cidades-satélite, nas diversas cenas de rua no Plano Piloto e mesmo no condomínio onde vivem Ney e Maria Lúcia. Nas cenas diurnas, optaram por uma paleta de cores que combina com a terra batida vermelha típica de Brasília, o que dá para ver até no pôster principal do filme. Também fizeram uma excelente pesquisa para compor os cenários internos: o apartamento de Ney e Maria Lúcia, a mansão de Jeremias, a casa de Pablo, a delegacia de Marco Aurélio, as casas miseráveis onde João viveu em Santo Cristo e em Brasília e a carpintaria em que João trabalhou.

A trilha sonora ficou a cargo de Philippe Seabra. O homem caprichou. Compôs sozinho em casa a maioria dos temas do filme, tocando todos os instrumentos. Na escolha das músicas não originais, escolheu músicas que combinassem com alguns personagens. Escolheu punk rock para Maria Lúcia, música orquestrada para Ney e música disco para Jeremias e suas festas. A banda Aborto Elétrico que aparece no filme está tocando de verdade. Mas é, na não-ficção, a Plebe Rude (a banda do Philippe) com um ator cantando no lugar de Renato Russo, aliás com uma voz bem parecida com a do original.

Por enquanto, é isso que tenho a contar sobre Faroeste Caboclo, o filme. Não contarei mais nada da trama, porque mesmo mantendo origens e destinos finais dos personagens da música original, os roteiristas tiveram o cuidado de refazer toda a história da música de forma a transformar a história em um filme de fato. Não é uma música mal adaptada para filme nem é um videoclipe. É filme com linguagem de filme, pop e ao mesmo tempo denso, cruel e pesado (já disse isso antes). Tem todo mérito para ser classificado como drama, apesar das descaradas influências de recentes filmes de Quentin Tarantino, até na logomarca oficial.

Pretendo conferir esse filme novamente no cinema. Depois ainda virão Blu-ray, TV e o escambau. Ainda devo encontrar muito mais coisas para curtir nesse filme.

Pra arrematar o filme de vez, tiveram o cuidado de colocar a música original inteira tocando com os créditos finais. Ambos durando rigorosamente o mesmo tempo! Ou seja, aqueles antológicos nove minutos e mais alguns segundos.

Como andam dizendo por aí, que venha Eduardo e Mônica!

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