Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Autópsia de um governo e de um partido vindo de alguém lá de dentro


Publicado por Idelber Avelar no Facebook:

Aconteceu-me um causo que é uma graça. É um diálogo, que relato com autorização do meu interlocutor, protegendo-lhe o anonimato.

Como sabe quem me conhece, tenho amigos no governo. Como milhares de brasileiros da minha geração, dediquei parte da juventude a ajudar a construir o partido que agora está no poder. Não me arrependo. Era a escolha óbvia para quem pensava como eu e, aos primeiros sinais do oportunismo que viria depois, eu o denunciei e lutei contra, com as armas que tinha. Perdi mas, como diria Darcy Ribeiro, eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

A história, no entanto, é sobre meu interlocutor, que trabalha no segundo escalão do governo, quase primeiro: acesso direto a Ministro, essas coisas. É ligado ao que se chamava “esquerda do PT”, seja lá o que isso signifique hoje. No meio de uma conversa, ele começou a reclamar, bravo, de algo relacionado à política. Como ele protestava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos, não entendi bem e achei que ele reclamava das minhas críticas ao governo. Então lhe disse:

“Fulano, posso continuar metendo o pau no governo e podemos continuar amigos do mesmo jeito. Você sabe que jamais critico pessoalmente alguém de 2° ou 3° escalão. Se personalizo a crítica, falo da Presidenta, de parlamentares, de Ministros. De vocês não vou falar nunca. Mas parar de criticar, não vou. Você me conhece”.

A resposta, com a explicação do porquê de ele estar tão bravo, me deixou estupefato:

“Não, Idelber! Não estou bravo com você. Concordo com muitas de suas críticas ao governo. Minha bronca é com a base do governo nas redes, que aceita tudo, engole tudo, não critica nada. Só piora a nossa situação aqui. Num governo de coalizão, a direita sapateia em cima da gente se não há pressão da base. Na última reunião com o pessoal do [insira aqui um Ministério controlado pela direita, que não vou dizer qual é], eles esfregaram na minha cara: 'não adianta espernear, porque a gente sabe que sua base vai aceitar, sim'”.

O raciocínio dele é óbvio e representa o beabá da política: num governo em que há gatos de todos os sacos, gente que quer manter o status quo, a política operando para servir aos poderosos, e gente que quer alguma alteração em favor dos mais fracos, a crítica vinda de fora serve para que estes possam dizer àqueles: “vejam os radicais lá fora. Estão fazendo barulho. Se a coisa for para as ruas, fica feio para nós. É melhor cedermos os anéis para não perder os dedos”.

Em outras palavras: a suposta “esquerda” governista nas redes torna fácil a vida da direita do governo, pois permite que esta esfregue nas fuças do que restou de esquerda por lá que, afinal de contas, podem até nomear Afif Domingos, expulsar jornalista de protesto, transformar Kátia Abreu em hóspede permanente do Palácio do Planalto e impedir a entrada de comida para índios cercados por forças policiais, porque ninguém do ex-Partido dos Trabalhadores vai protestar.

Não é incrível? Acompanho política há três décadas, em vários países, e é a primeira vez que vejo uma liderança de governo reclamar que a base governista é obediente em excesso, fanaticamente governista demais, e que isso atrapalha o próprio governo.

Sério, eu teria vergonha de ser um daqueles a quem meu amigo alude nesse comentário.

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