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sábado, 23 de fevereiro de 2013

'Titanomaquia': O grande álbum injustiçado dos Titãs


O álbum Titanomaquia (1993) é um dos mais injustiçados de toda a discografia das bandas do rock brasileiro oitentista. Os Titãs estavam vindo do lançamento do disco Tudo ao mesmo tempo agora (1991), primeiro disco autoproduzido da banda e que sofreu muito com baixas vendagens (menos de 150 mil cópias, padrão muito baixo para grandes artistas brasileiros no mercado fonográfico da época) e levou uma surra da crítica.

Bem melhor que o disco anterior, Titanomaquia é um excelente disco, é mais bem resolvido e mais coeso. Pode-se dizer que é o melhor disco da banda, se retirarmos da lista o incomparável Cabeça Dinossauro, que transcende a cena rock e a época em que foi gravado. Titanomaquia foi o primeiro disco dos Titãs sem a presença do fundador Arnaldo Antunes, que colaborou com a coautoria de algumas poucas faixas. Mas até que a banda fez um excelente trabalho de composição. As músicas foram de um extremo a outro: de letras complexas e sem refrões fáceis (algumas sequer tem refrão) a letras com repetição de palavras e expressões mais com o objetivo de sustentar a música que qualquer outra coisa.

Musicalmente, o disco foi uma resposta furiosa à chuva de críticas ao disco Tudo ao mesmo tempo agora. O capricho feito agora em Titanomaquia fez jus a análises desta vez positivas da crítica, apesar do estranhamento com um disco musicalmente pesado, fora de tudo o que os Titãs haviam feito antes. A produção e a mixagem do disco ficaram a cargo de Jack Endino, produtor do primeiro disco do Nirvana, Bleach. Não por acaso, Endino e os Titãs fizeram o disco ficar num meio termo entre o grunge e o punk rock. Apesar disso, é injusto classificar Titanomaquia como um mero "disco grunge". Embora tenha sido claramente influenciado pela cena grunge em voga na época, este disco tem muito mais. Tem uma banda entusiasmada com o som surpreendentemente pesado que fizeram e tem letras que só sujeitos inteligentes como os Titãs seriam capazes de escrever, parecendo sempre brincar com o idioma português.

Titanomaquia vendeu tão pouco ou quase tão pouco quanto Tudo ao mesmo tempo agora, mas gerou uma turnê que as testemunhas costumam dizer que foi memorável. Foi também o último disco do auge criativo da banda, que começou lá no primeiro disco e tem aqui no Titanomaquia um excelente ponto final. Depois a banda começou uma série de discos com apelo pop, com altos e baixos, até mesmo com discos constrangedores.

Eu ouvia algumas faixas de Titanomaquia entre 1993 e 1994 através da Fluminense FM. Mas só o ouvi inteiro em 2007. Desde então, o procurei em vários lugares. Até em lojas da lendária Galeria do Rock em São Paulo, onde encontrei em 2009 um exemplar original de 1993 (que nem soube se era usado ou não) sendo vendido por extorsivos 105 reais. E olha que o disco nem vinha na embalagem lacrada original, que era literalmente um saco de lixo (virgem) preto, ao invés dos tradicionais lacres plásticos transparentes. O disco estava há anos esgotado e fora do catálogo da Warner. Até que em 2011 foi feita uma nova prensagem de 1000 cópias. Uma delas adquiri agora neste mês e serviu de base para este texto.

Titanomaquia faixa a faixa

Todas as faixas foram assinadas coletivamente pelos Titãs, exceto as indicadas.

1 - Será que é isso o que eu necessito? - É uma das duas faixas feitas especialmente para responder à crítica. Foi um grande sucesso na época, inclusive radiofônico. Algumas rádios cometeram a asneira de tocar a versão editada e enviada pela gravadora, sem os dois únicos palavrões da letra. Esta música ganhou um videoclipe em preto e branco que reflete o projeto gráfico do encarte do disco e do lacre preto de 1993.

2 - Nem sempre se pode ser Deus - Como a faixa anterior, foi feita para responder à crítica. Também foi um sucesso.

3 - Disneylândia (Titãs/Arnaldo Antunes) - Tem uma enorme letra sem refrão, em que a banda descreve uma série de eventos da globalização. Basicamente a circulação desenfreada de pessoas, mercadorias e produções culturais em quase todo o mundo. A Disneylândia em si é citada só no final: "Crianças iraquianas fugidas da guerra não obtém visto no consulado americano do Egito para entrarem na Disneylândia". Fez relativo sucesso entre os fãs da banda.

4 - Hereditário (Titãs/Arnaldo Antunes) - Única faixa cantada por Nando Reis, mais do que nunca deslocado no Titanomaquia, por estar mais interessado na MPB mais comercial, que influenciou sua futura carreira solo. Tem um solo de teclado inesquecível, algo diferente num disco tão pesado como foi este. Claro que foi sucesso radiofônico. Também ganhou um videoclipe, como a primeira faixa.

5 - Estados alterados da mente - Uma música cuja letra é uma série de citações de incidentes neurológicos, na mesma linha da música O pulso, de Õ Blésq Blom.

6 - Agonizando - Uma música acelerada mas com letra grande e repetitiva feita unicamente para sustentar o peso e a velocidade da música.

7 - De olhos fechados (Titãs/Arnaldo Antunes) - Outra música com letra grande e repetitiva feita unicamente para sustentar o peso e a velocidade da música.

8 - Fazer o quê? - Uma música que começa com um lento e crescente (em volume de áudio) solo de guitarra, mas que depois explode em fúria com um ritmo pesado e marcial e com uma letra de inconformismo puro. A introdução foi adaptada do fragmento de Eurípides (século III a.C., Papiro de Viena G 2315).

9 - A verdadeira Mary Poppins - A primeira música do disco que lida com o tema da morte, até de uma forma irônica ("Eu sei que estou fedendo / Eu sei que estou apodrecendo") e que contém várias citações de celebridades falecidas ("Eu sou o rei Salomão / Eu sou John Kennedy / Eu sou Raul Seixas / Eu sou Jimi Hendrix"). Bruce Lee, Bob Marley e Peter Sellers também são citados. A música fez um relativo sucesso entre os fãs da banda. Em toda a discografia dos Titãs, é provavelmente a faixa em que o então baterista Charles Gavin atingiu seu auge, mostrando todo o seu potencial criativo.

10 - Felizes são os peixes - Uma música pesada e rápida como todo bom punk rock, com letra curtíssima (a mais curta do disco), e sem nenhuma mensagem específica. A música é pra fazer barulho, mesmo.

11 - Tempo pra gastar - A música mais longa do disco também é a melhor de todas, em música e letra. É a crônica do sujeito que está com tempo sobrando e procura algo para fazer. Lá no final, Sérgio Britto diz no microfone a data e hora exatos da gravação da música ("São 18 horas e 30 minutos. Dia 30 de março de 1993. Terça-feira"). A Fluminense FM tocou bastante esta música.

12 - Dissertação do Papa sobre o crime seguida de orgia - Os Titãs jamais foram tão radicais quanto nesta música. Nem nos tempos do Cabeça Dinossauro. A letra foi toda retirada do livro homônimo do Marquês de Sade. É uma descrição com detalhes de variadas formas de assassinato brutal cometidas por membros de vários povos ao longo da história humana. A descrição vem depois do aviso: "O assassinato é uma paixão como o jogo, o vinho, os rapazes e as mulheres, e jamais corrigida se a ela nos acostumarmos. O crime é venerado e posto em uso por toda a Terra. De um pólo a outro se imolam vidas humanas".

13 - Taxidermia - A última faixa do disco é a terceira música que cita o tema da morte, de forma mais indireta do que as outras. O nome da música e alguns versos fazem referência a um conhecido método de preservação de cadáveres: a taxidermia. O clipe da música traz seu vocalista Paulo Miklos sendo embalado em diversas embalagens plásticas e acrílicas, assim como um cadáver em processo de taxidermia.

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