Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Progressiva FM: uma rádio comunitária de verdade


Na história das rádios comunitárias e/ou piratas da década de 1990 da cidade do Rio de Janeiro, o capítulo mais destacado cabe à extinta Progressiva FM 91,3, emissora que tinha sede e torre no Complexo da Maré. A emissora era tocada por uma equipe de ativistas sociais, que tinham Wladimir Aguiar à frente.

A Progressiva FM tinha um alcance excepcional. Além de atingir facilmente com sinal local todo o bairro de Bonsucesso, a rádio chegava com diferentes níveis de sinal a lugares distantes como outros bairros da Zona Norte que margeiam a Avenida Brasil, a Ilha do Fundão, Pilares (de onde eu ouvia a emissora), Inhaúma e alguns pontos de São Cristóvão, Centro, Rio Comprido, Tijuca, Maracanã e Praça da Bandeira.

Tenho aqui um texto que coloquei na definição da comunidade da Progressiva FM que criei no Orkut:

Nos anos 90, houve uma rádio no bairro carioca de Bonsucesso, na freqüência FM 91,3. Chamava-se Progressiva FM, e foi a melhor rádio rock que esta cidade teve nos anos 90. A rádio foi extinta.

Dificilmente teremos a Progressiva FM no ar novamente. Pode ser que ela volte em breve, como web radio. De qualquer forma, fica aqui este espaço para todos os profissionais e ouvintes daquela rádio vanguardista lembrarem daqueles dias heróicos em que tínhamos uma rádio de verdade, de rock de verdade.

De fato, a programação da Progressiva FM foi a melhor do gênero em sua época. Era melhor até que a Fluminense FM, nos anos que coincidiram o início da Progressiva e o fim da Fluminense. A Progressiva tinha a vantagem da independência total, por não ter ezecutivos tacanhos como os que mataram a rádio niteroiense várias vezes. A planilha da rádio era vasta e variada. A ponto de ter incluído uma música de uma banda de rock cristão: a música Abrir os olhos, do Resgate. Apesar do nome, a emissora não transmitia apenas música progressiva. Apresentava todos os estilos de rock. Dos medalhões, passando por nomes indies daqui e do exterior, bandas artisticamente relevantes, os grandes nomes do rock brasileiro até as boas novas bandas brasileiras da época. A rádio de fato tocava todas as boas gravações de bandas independentes que chegaram lá, muitas vezes em fitas demo cassete.

A rádio tinha programas diários e programas semanais dedicados a segmentos específicos. O mais destacado era o Artigo 5º, só com bandas independentes. O nome do programa fazia alusão ao Artigo 5º da Constituição, que tem eu seu item IX:

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença

Vários radiodifusores de rádios autenticamente comunitárias pelo país afora usam até hoje esse texto (especialmente a expressão independentemente de censura ou licença) como motivo para colocarem essas emissoras no ar, mesmo na condição de rádios piratas.

Eu ouvia constantemente esse programa Artigo 5º. O programa era literalmente sem censura. Jogavam ouvintes no ar ao vivo, sem fazer distinção entre os ouvintes. Cheguei a entrar no ar ao vivo, para debater com Wladimir e os outros integrantes do programa a compra e o arrendamento de emissoras de rádio oficiais pelo país afora, já naquela década. Tema que surgiu numa das edições do programa. Também entrei no ar para debater sobre o circuito de rock independente da cidade.

Por algum motivo ainda não esclarecido, a Progressiva FM aumentava a sua potência uma vez por semana, exatamente no horário de 20 a 22h das quintas-feiras, que era o horário do Artigo 5º. O sinal da rádio aumentava tanto que eu a sintonizava com sinal local em Pilares, não com sinal raquítico como de costume. Invariavelmente o Artigo 5º se estendia além do seu horário. Teve edição que acabou quase à meia-noite. Era até curioso ouvir a rádio baixando a potência depois do programa. Até o volume de som diminuía.

Para cumprir sua função de rádio comunitária, a Progressiva FM fazia parceria com associações de moradores do Complexo da Maré e com outras entidades que atuavam ali. A rádio não tinha comerciais. No lugar deles, colocava campanhas e mensagens educativas. Havia uma que recomendava explicitamente a substituição da margarina por manteiga, por ser mais saudável.

A Progressiva FM entrou no ar antes mesmo do fim da Fluminense FM (1994). A Progressiva FM acabou virando, obviamente, a nova rádio rock do Rio, pra quem podia sintoniza-la. Surgiu sem fazer propaganda. Só o barulho característico dos rocks que transmitia. Houve uma época em que agentes da Anatel diziam que era "questão de honra" achar e fechar a Progressiva FM. Só que não conseguiram. A rádio saiu do ar cerca de oito anos depois de entrar no ar. Foi extinta na mesma época em que a Rádio Cidade foi arrendada pelo projeto "Rede Rock" da 89 FM paulistana.

O próprio Wladimir deu a sua versão sobre o fim da rádio no Orkut:

Sonho acabou, isso mesmo, foi um sonho pensar que poderímos manter no ar uma emissora tão idependente quanto a Progressiva FM. Não foi a PF, a Anatel ou a pressão das outras emissoras, e sim o tempo,'time for money'.
Foi como um amor de verão curtido intensamente que durou 8 anos.
Sobrou na equipe apenas eu e a Alyne Fernandes, e resolvemos desaparecer do dial da mesma forma que surgimos, misteriosamente.

Mantivemos a Progressiva FM no ar por mais de 8 anos com recursos próprios, era a resistência undergound no dial carioca, participamos de momentos históricos como a tomada da reitoria da UFRJ, fomos citados em vários veículos de comunicação como a voz do submundo, várias bandas que hoje fazem sucesso deixaram sua fitinha demo lá.

Chegamos a ser a nº 1 na lista da Polícia Federal para ser fechada, para a Anatel era questão de honra lacrar a Progressiva FM, resistimos até o fim sem sair do ar, nunca conseguiram nos pegar.

Encerramos nossa programação no auge de audiência, com a consciência do dever cumprido.

Wladimir Aguiar não deixou completamente o rádio, após o fim da Progressiva. Ele e outros ativistas criaram no Complexo da Maré uma entidade comunitária que se candidatou à concessão de uma rádio comunitária. E eles conseguiram. A Maré FM entrou no ar há alguns anos, inicialmente em FM 105,9 MHz. As mudanças de posições das rádios FM do Rio de Janeiro obrigaram a Maré FM a se transferir para os 98,7 MHz, há alguns meses. A Maré FM tem uma programação popular, mas ao que tudo indica, cumpre sua função de rádio comunitária. Até há pouco tempo, Wladimir tinha um programa semanal de rock na Maré FM, o Rádio Palco, às 19h de sábado, com produção de Wladimir Aguiar e Marcos Araújo. No momento, encontro dificuldade para ouvir a emissora pela Internet.

Em 26 de novembro do ano passado, Wladimir Aguiar divulgou o endereço da versão da Progressiva FM para a Internet: http://www.sisdera.com/stream/webplayer3.php?canal=aovivo&autoplay=1&quot. Por algum motivo, até hoje todas as minhas tentativas de ouvir a rádio fracassaram.

Este é um breve histórico da saudosa Progressiva FM. Sinceramente, eu gostaria que a situação do dial carioca fosse completamente diferente, hoje. A situação só piora, desde o início da década de 1990. As rádios cariocas, sejam grandes, comunitárias ou piratas, estão quase todas entregues à politicagem, à Música de Cabresto Brasileira, ao jabá musical, jornalístico e esportivo e à picaretagem gospel.

Fiquem aqui meus cumprimentos à equipe da Maré FM e à equipe da extinta Progressiva FM.

Texto publicado originalmente em TVs do RJ.

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