Política, cultura e generalidades

sexta-feira, 2 de março de 2012

Oitentistas viraram dinossauros envelhecidos

Resposta para O Kylocyclo:

Eu sempre disse que as bandas e cantores que mais gosto e ouço até hoje são os do rock brasileiro da década de 1980. Mas sei que, por mais que eles sejam bons e talentosos, alguns deles não continuariam tão bons a vida toda. Eles são gente com virtudes e defeitos, como qualquer outra pessoa. Diante da dificuldade de se manter tocando rock autêntico num país onde a Música de Cabresto é culturalmente, musicalmente, mercadologicamente, ideologicamente e politicamente dominante, seria natural que os nomes daquela geração se dividissem quanto aos métodos escolhidos para lidar com o problema da visibilidade e da ameaça constante de naufrágio da carreira.

Alguns nomes daquela geração tem jogo de cintura para fazerem a vida fora das carreiras com que ficaram conhecidos, passando a tocar mais por diversão que por necessidade. É o caso dos músicos remanescentes da Plebe Rude da fase clássica. Philippe Seabra montou um estúdio em Brasília e tem uma movimentada clientela. André X prestou concurso e hoje é servidor do Banco Central, também em Brasília. A maioria não tem condições para iniciar qualquer carreira fora de suas bandas. E não tem condições de adotarem padrões de vida bem mais modestos do que o que tinham no auge. Ainda mais aqueles que tem filhos e tudo mais. Então a maioria faz alianças com o sistemão da Música de Cabresto para sobreviver. O que importa é pagar as contas de casa. O resto que se exploda. Inclusive a reputação diante dos antigos fãs, que os colocaram nos mais elevados patamares da história da música nacional.

Essa crise de identidade da geração oitentista do rock nacional lembra muito a crise de identidade da esquerda brasileira. A esquerda realizou o sonho de banir a direita do Palácio do Planalto. Mas só do Palácio. Porque a própria direita fisiológica (PMDB à frente) permanece no Governo. De direita fisiológica, só estão de fora do Governo os banidos PSDB e DEM. A esquerda e o rock nacional oitentista foram parte dos nossos sonhos da juventude. Imaginávamos que o mundo (ou ao menos o Brasil) seria muito melhor com a esquerda no poder e o rock nacional nas casas de espetáculos, nas rádios e nas TVs. Só que a esquerda fez alianças com a direita partidária (noves fora PSDB e DEM) e com a direita midiática, que ataca nos redutos partidários e na esgotosfera progressista, mas com quem faz pactos de não agressão nos bastidores.

E o rock nacional foi se diluindo, fazendo cumprir aquela velha máxima do Mestre Raul Seixas, que dizia jocosamente que o rock morreu junto com Elvis Presley. A coisa começou a degringolar ainda nos anos 90, com sucessivos discos de covers e os acústicos, intercalados com discos ao vivo. Bandas se separaram por brigas (caso do Ira!) e outras bandas inventaram um eufemismo para o fim, chamado "férias por tempo indeterminado" (caso do Barão Vermelho e do Kid Abelha, esta reativada em 2010).

De todas as grandes bandas dos anos 80, a única que se diluiu mas tem ainda consistência para não se misturar com a Música de Cabresto e seus aliados históricos é o Capital Inicial. A ponto do vocalista Dinho Ouro Preto descer a lenha no senador lulo-dilmista José Sarney sem parecer algo hipócrita ou falso, sem parecer um cansado ou millenarista, e ainda obtendo apoio da distinta plateia. Uma banda que desde o Acústico MTV gravou apenas dois discos de estúdio abaixo da crítica, gravou dois excelentes discos autorais, gravou o Aborto Elétrico (só com músicas da primeira banda dos irmãos Lemos) e o CD/DVD ao vivo do Multishow gravado em Brasília. A maioria voltou para o underground ou troca favores com a Música de Cabresto e seus divulgadores.

O contrário da rendição à Música de Cabresto (os caras da Música de Cabresto se rendendo aos bons artistas) é aceitável até para os músicos. Por questão de educação e obrigação de acolher os fãs. Lembro de ter visto uma vez no programa Altas Horas os grupos Ira! e Jammil e uma Noites e lá pelas tantas o vocalista Levi Lima (do Jammil) se declarou fã do Ira! desde jovem. Recebeu o agradecimento dos (já não tão) rapazes do Ira!. Obviamente, a recíproca não seria verdadeira.

Eu continuarei curtindo os trabalhos dessas bandas todas, mas não com a mesma urgência de outrora. Eles viraram dinossauros envelhecidos. Ao mesmo tempo, rompi com a esquerda, que fazia parte dos meus ingênuos sonhos de juventude, junto com o rock brazuca oitentista. Quem troca figurinhas com a Música de Cabresto não precisa ser de todo abandonado, mas quem trai voto tem mais é que ser rejeitado radicalmente, como eles mesmos são radicais na defesa de suas fisiologias. Pena que nem todos os meus amigos saíram da adolescência, e insistem em apoiar esses políticos traidores da Pátria e ainda esperam alguma coisa boa deles.

Só tem uma coisa que rejeito totalmente nesse texto do amigo Alexandre Figueiredo. Não é todo mundo que tem 35 anos de idade que considera a Legião Urbana uma banda tão "geriátrica" como Os Cariocas. Meus amigos com menos idade e minha irmã que tem bem menos que 35 anos não consideram a Legião ou qualquer banda da mesma geração como algo sequer próximo de "coisa velha" ou "coisa de velho". Aliás, eu fui com minha irmã e o marido dela (da mesma idade) para a apresentação de Paul McCartney no Engenhão. Perguntem a todos que foram lá se alguém considera o ex-beatle "geriátrico". O homem está na estrada há mais de 50 anos...

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