Política, cultura e generalidades

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro (filme)

Faz uma semana que o filme franco-britânico A Dama de Ferro estreou em terras tupiniquins. Fui conferir o filme (conforme disse aqui que veria) enquanto o resto da cidade se esbaldava na folia carnavalesca da terça-feira gorda.

Eu disse que talvez os produtores do filme tivessem como objetivo glamourizar a figura polêmica da ex-primeira ministra Margaret Thatcher. Não foi bem isso que encontrei. Ninguém que reprova a trajetória política da matriarca do neoliberalismo passará a admira-la só por causa da imagem passada por este filme. Até mesmo o tão celebrado ineditismo de uma mulher ocupando o cargo de primeira-ministra do Reino Unido perde um pouco do glamour lá no começo do filme, ao vermos que a filha caçula de um vereador, pregador metodista e pequeno comerciante proprietário de apenas duas mercearias (o que não a impediu de se graduar em Química na lendária Universidade de Oxford) casou com um colega do Partido Conservador que efetivamente a lançaria na política. Ou seja: ela não se lançou na política por conta própria. O filme também realça o desprezo que Thatcher sempre teve por toda e qualquer movimento sindical forte (é citada no filme a categoria dos carvoeiros), enquanto ela se aproximava dos eleitores aparentemente com sindicatos fracos ou ausentes. No filme é mostrada uma cena de Thatcher fazendo campanha eleitoral numa fábrica de sorvetes, com ela mesma pegando sorvete de casquinha numa das máquinas industriais.

A Dama de Ferro realça também um motivo que levou Thatcher a pleitear a liderança do partido, o que acabaria levando-a ao cargo de primeira-ministra caso o partido conquistasse a maioria no Parlamento britânico (o que aconteceu em 1979). Segundo o filme, ela achava que os líderes do partido eram um bando de covardes, incapazes de fazer tudo aquilo que a ideologia partidária (e dela própria) acreditava ser necessário fazer.

Ao longo do filme, são mostrados episódios dos 11 anos e meio de gestão Thatcher, como o desemprego em algumas categorias profissionais nos dois primeiros anos de governo (e os consequentes protestos de rua), o combate ao comunismo e o mais tenso de todos: a Guerra das Malvinas. Sobre a guerra, é interessante que o filme anote que a guerra acabou virando uma disputa não só entre as duas nações (Argentina e Reino Unido) e os militares dos dois lados, mas também uma disputa entre conservadores. No caso, o governo conservador de Thatcher e os integrantes da ditadura militar argentina, chamados pela própria Thatcher do filme de "gangsteres" e outros adjetivos vexatórios. O filme não mostra as consequências da perda da guerra para a Argentina (como a consequência positiva do fim do regime militar, um ano e meio depois), se limitando a mostrar que a Inglaterra retomou o arquipélago do Atlântico Sul e o Partido Conservador venceu a eleição de 1983, mantendo Thatcher no cargo e anulando momentaneamente as ações do maior partido de oposição: o Trabalhista.

Fora os aspectos políticos de Margaret Thatcher, o filme preferiu abordar a personagem nos dias atuais, atualmente com 86 anos. As cenas sobre a sua juventude e seus anos de militância política (incluindo o mandato parlamentar, seu governo e sua participação em gestões de primeiros-ministros conservadores anteriores) são mostradas em flash backs, ora longos, ora alternados com imagens atuais da personagem. Aliás, esses delírios do passado são mostrados pelo filme como parte dos problemas de saúde da personagem, que apresenta sintomas de demência desde o ano 2000. Já circulam na Internet comentários dando conta de que os filhos de verdade de Thatcher ficaram chocados com a forma com que o atual quadro de saúde da mãe foram retratados no filme.

O filme chega a ser cruel ao mostrar Thatcher se ausentando de casa para iniciar seu primeiro mandato parlamentar. Chega a mostrar Thatcher nos dias atuais vendo antigos desenhos de infância dos filhos dedicados apenas ao pai.

No que diz respeito à atuação da atriz Meryl Streep, é impecável. Nada a ser criticado. Por conta deste papel, a atriz já faturou o BAFTA de melhor atriz principal e o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama. No domingo que vem, concorrerá ao Oscar de melhor atriz.

A trilha sonora do filme é muto boa. Além da trilha original orquestrada, foram usadas também algumas músicas não originais. Como as músicas de bandas de punk rock usadas nas imagens dos protestos contra o Governo Thatcher. Tudo a ver. A Dama de Ferro sempre foi o alvo preferido das bandas punk britânicas, ao lado da rainha.

Aos que gostam de cinema, dispam-se dos conceitos e preconceitos contrários ou favoráveis à senhora Margaret Thatcher e vão lá conferir A Dama de Ferro. É um filme sensacional. Cinema de verdade, sobre uma personagem que faz parte da história geral. Se para o bem e/ou para o mal, isso será sempre um vasto assunto para debates políticos.

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