Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A grande parada de música de protesto de direita liberal na Av. Rio Branco

A matéria sobre este assunto saiu hoje no jornal O Dia: no próximo dia 30, domingo, haverá na Av. Rio Branco (centro do Rio de Janeiro) um evento denominado Rio Parada Funk. Haverá nove palcos espalhados na avenida, o principal na Cinelândia, este com "palestras e debates sobre temas como sexo seguro e primeiro voto, das 10h às 14h", palavras de O Dia. Nos nove palcos, tome shows de fânqui, obviamente.

Nem vou escrever aqui toda a bobajada propagandista do artigo. Só realçarei as palavras do idealizador e coordenador do evento, que além de dizer que o evento é político e dizer que o fânqui merece a mesma atenção que gêneros mais tradicionais (ele citou o samba), veio com esta pérola:

"Queremos que esse evento entre para o calendário oficial da cidade e atinja milhares de jovens que poderão participar de uma manifestação cultural pacífica e conscientizadora através do funk".

Dá para detonar um a um os argumentos do evento. Em primeiro lugar, o idealizador disse que o evento é político. Pode ser. O fânqui é, pelo menos desde que surgiu nos anos 80 (o que havia antes no Rio era funk), uma espécie de música de protesto de direita, assim como aquela outra música, chamada protestante, evangélica, gospel ou que nome coloquem. Se há alguma abordagem política no fânqui, é a da direita liberal. Manter o status quo: o pobre tem que se orgulhar de ser pobre e ainda ser agradecido por isso, a favela tem que continuar como tal e ser chamada de comunidade, o garoto pode ser marionete de barões do fânqui ou apenas um cara que se limita a usar os pés para atravessar uma bola sob uma trave, e a garota tem que se contentar em ser mero objeto sexual, balançando o popozão e descendo até o chão. E ainda vem esses caras falando de dignidade da mulher...

No que diz respeito ao sexo seguro, há de se desconfiar de quem fala em sexo seguro quando se considera o sexo como a suprema realização corporal da vida humana. Aqui temos novamente a ideologia liberal. Quem elege o sexo como prioridade (não necessariamente a primeira) acaba se machucando um dia. O tal sexo seguro vai pro beleléu.

Ainda sobre o primeiro voto, é evidente que as lideranças do fânqui colocarão os seus próprios como opção de primeiro voto consciente. Barões, baronesas, DJs e MCs do fânqui (e, possivelmente, deputados frouxos) estarão na linha de frente dos palcos do evento.

Quanto à conscientização atribuída ao fânqui, só se for pela direita liberal, como dito antes. Afinal, até um reacionário vota um dia pela primeira vez e pode querer o pseudo-sexo seguro. Não deixará de ser reacionário por isso.

No dia em que os artistas do fânqui voltarem músicas de protesto contra figuras como José Sarney, voltem a falar de conscientização. Ou então assumam o que são: agentes de uma indústria de entretenimento.

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