Política, cultura e generalidades

domingo, 22 de maio de 2011

Apresentadora infantil, uma profissão em extinção

Já não era sem tempo. A única coisa que eu gostava de conferir no Xou da Xuxa era alguns dos desenhos. Especialmente o dos Ewoks, franquia derivada de outra bem maior: a saga Star Wars. O resto do programa era de uma falsidade medonha, que eu já percebia, mesmo com pouca idade.

As imitações, então... Eram mais falsas ainda.

Fonte: MSN.

Por WALLACE CARVALHO

RIO DE JANEIRO - No começo da década de 90, todas as principais emissoras do país tinham um programa infantil comandado por uma loira em sua grade. O sucesso destas mulheres que se vestiam e, em sua maioria, falavam como crianças era tanto que estavam sempre sendo assediadas pelos diretores dos canais concorrentes.

Como bem dito no início deste texto, isso era na década de 90. Analisando o cenário atual, chega a bater um desespero. São tantas opções de entretenimento, tantos canais para garantir a diversão das crianças que a boa e velha apresentadora infantil não acha mais lugar na infância dos brasileirinhos. Será? O Famosidades ficou com a pulga atrás da orelha e quis saber o que aconteceu neste meio de caminho.

Para entender direito essa história, vamos voltar e ver como tudo começou. O reinado das apresentadoras loiras foi criado por Xuxa. Após se destacar no comando do “Clube da Criança”, na extinta TV Manchete, a alta cúpula da TV Globo enxergou o potencial da ex-modelo em se comunicar com os “baixinhos” e a contratou, ainda na década de 80, com a missão de substituir a turma do Balão Mágico, que não alcançava o mesmo sucesso de outrora. Assim nasceu o “Xou da Xuxa”.

O projeto foi responsável pela criação de um novo modelo de programa infantil na TV brasileira. A atração da gaúcha misturava brincadeiras, números musicais e números circenses, exibia desenhos animados e contava com a participação de centenas de crianças em cada gravação. Em pouco tempo, a produção se tornou fenômeno de audiência e transformou Xuxa em ídolo nacional. Apesar do sucesso com o público alvo, o “Xou” sofreu uma enxurrada de críticas de educadores infantis e intelectuais que acusavam o programa de causar alienação nas crianças brasileiras ao remetê-las a um mundo de fantasia totalmente fora da realidade do nosso país.

Tamanho sucesso deu brecha para que as concorrentes passassem a investir em projetos similares e lançassem suas próprias Xuxas. Foi seguindo o caminho aberto pela “Rainha dos Baixinhos” que surgiram nomes como Angélica, Eliana, Jaqueline Petkovic, Mariane, Paty Beijo, Debby e... Mara Maravilha. Única morena no meio de tantas loiras, a baiana travava uma guerra diária com a “Rainha”. Exibido pelo SBT, o “Show Maravilha” nasceu um ano depois do “Xou da Xuxa” e era exibido no mesmo horário que a produção global. Mas, a apresentadora jura que nunca houve nenhuma rixa entre as duas. “O que havia era mídia querendo vender revista e jornal”, garantiu ao Famosidades.

Após sete anos comandando as manhãs da emissora de Sílvio Santos, Mara decidiu não renovar seu contrato para tentar o sucesso no exterior. “Logo depois iniciei minha carreira na América Latina”, contou a morena, que chegou a apresentar um programa na Argentina. Sem a baiana e com Xuxa no comando de um programa semanal, a Globo investiu suas fichas na contratação de Angélica – que fazia sucesso no SBT, que por sua vez apostou em Eliana.

A mulher de Luciano Huck apresentou o “Angel Mix” durante quatro anos nos estúdios do Projac, estrelou projetos que não foram bem de audiência, como “Flora Encantada” e “Bambuluá”, e no ano 2000 decidiu dar uma guinada em sua carreira e passou a investir no público adulto. O mesmo acabou ocorrendo com Eliana. A loira trocou o SBT pela Record e após sete anos no comando da programação infantil da emissora da Barra Funda, saiu do ar e voltou à TV com uma atração para a família.

Se foi Xuxa quem abriu a porta para essa fábrica de ilusões colorida, onde todo mundo era feliz o tempo inteiro, ela foi a última a passar pela porta e a deixar encostada. Depois que se despediu do “Xou da Xuxa” para tentar a carreira no exterior, a apresentadora voltou para a TV dois anos depois no comando do “Xuxa Park”, que ficou no ar por seis anos. A atração chegou ao fim após um incêndio ter atingido o estúdio onde o programa era gravado que deixou 26 pessoas feridas.

Em 2002, Xuxa e Marlene Mattos romperam uma parceira de quase 20 anos de sucesso. O motivo real da briga nunca ficou claro, mas sabe-se que a diretora acreditava que a estrela deveria abandonar o público infantil e apostar nos adolescentes. Seguindo sua intuição, a loira cancelou o “Planeta Xuxa” e apostou suas fichas no lúdico “Xuxa no Mundo da Imaginação”. O projeto não foi bem de audiência e foi cancelado dois anos depois. A apresentadora tentou reconquistar o prestígio de outrora com o “TV Xuxa”. Após dezenas de reformulações, a atração deixou de focar nos baixinhos.

Com Xuxa, Angélica e Eliana apresentando programas para a família, as crianças ficaram “órfãs”, pois as emissoras de TV não encontraram ninguém que as substituísse. Teria a fórmula de programas infantis com brincadeiras, desenhos, apresentadora e auditório se esgotado? Sílvia Abravanel, diretora do núcleo infantil do SBT, acredita não. “O que aconteceu foi que não surgiram apresentadores com o carisma necessário para ocuparem os espaços deixados por elas”, disse ao Famosidades.

A psicóloga Maria Cláudia Tardin, professora da ESPM-RJ, afirmou que, atualmente, as crianças não conseguem mais sentir fascínio por líderes de auditório. “Elas estão mais focadas em si, em corresponder as exigências sociais de apresentar sucesso aos seus e estarem sempre antenadas”, disse. Maria Cláudia explicou que para uma pessoa idealizar um ídolo ela precisa se identificar com ele para suprir sua insegurança. “As crianças de agora precisam se sentir poderosa, não perceber e nem enfrentar suas inseguranças”, pontuou. Aliada a essa nova mentalidade, pesa o fato delas terem nascido em um mundo virtualmente conectado, o que faz com que não tenham paciência para ficarem grudadas na frente da TV. “As crianças de hoje gostam de tecnologia, vídeo game”, opinou Mara Maravilha.

A carência de apresentadoras é algo inegável. Mas, então, o que fazer? A resposta é investir em desenhos animados. Foi isso que as emissoras fizeram, uma troca do auditório pelas sessões de animação. A Globo chegou até a pisar no terreno da dramaturgia infantil, mas acabou desistindo devido ao alto custo de produção e o baixo retorno em audiência. Como foi o caso do “Sítio do Pica Pau Amarelo”.

Questionada sobre a falta de investimento na área, a Central Globo de Comunicação informou estar sempre aperfeiçoando e modernizando sua programação infantil. “Investindo em qualidade de entretenimento, educação e informação, além de incentivar a produção nacional. E continua sendo um objetivo da emissora dedicar atenção especial aos programas infanto-juvenis, com cuidado e responsabilidade com o conteúdo exibido”, informou em nota.

Recentemente, o SBT reformulou toda sua programação destinada às crianças. Responsável pela série de mudanças no núcleo infantil do canal, Sílvia Abravanel contratou a dupla de palhaços Patati Patatá com o objetivo de resgatar a infância. “A primeira coisa que as crianças fazem hoje é ir para o computador para aprender a usar tipos de ferramentas que são totalmente dispensáveis para a idade deles. Com isso, as brincadeiras vão ficando para trás porque não sobra tempo. Esses palhaços vão trazer a ingenuidade para a TV”, ressaltou.

Apesar dos meninos e meninas não gostarem de serem tratados como crianças, ela acredita que as crianças estão sempre em busca de conteúdo para elas. “Faltam boas ideias e bons apresentadores. É só você ver o sucesso que as emissoras fechadas, focadas nesse tipo de público, fazem”, analisou. Além do reforço da dupla, a emissora continuará investindo nas estrelas da casa. Yudi e Priscila ganharam um estilo mais colorido inspirado no programa Hi5, exibido na Discovery Kids. Já a menina Maísa – que chegou a vencer Xuxa no Ibope diversas vezes – manterá o estilo “Shirley Temple” por mais algum tempo. “Ela é uma artista talentosa e com futuro promissor. Nos próximos dois anos, ela vai manter esse visual bonequinha”, garantiu Sílvia.

Candidatas não faltam para passar pela porta que Xuxa deixou encostada. Danny Pink é uma delas. A loira bate ponto na telinha desde os 10 anos e há cinco comanda o programa "Hora de Brincar" na Rede Vida. Sondada pelo SBT, ela revelou que foi a “Rainha dos Baixinhos” quem a incentivou a usar o apelido de infância no nome e que aprendeu muita coisa ao lado da estrela global.

“Enquanto ficava observando nos bastidores sempre aprendia algo novo”, contou ao Famosidades. Segundo Danny, ainda existe espaço para tipos como o seu programa na TV aberta. “Enquanto existir criança, esse espaço também existirá”, garantiu.

Para os fãs que sentem saudades da bagunça que Xuxa fazia nas manhãs globais, nem tudo está perdido. A gaúcha estreou em abril o programa “Mundo da Xuxa” na Globo internacional. O projeto, exibido de segunda a sexta, apresenta os melhores momentos dos 25 anos da loira na emissora carioca, além de clipes do projeto “Xuxa Só Para Baixinhos”. Sem comandar nenhuma atração infantil desde 1997, Mara Maravilha também faz planos de retomar a carreira. “Adianto para vocês em primeira mão: estou voltando em breve”, prometeu. Parece que o show vai recomeçar... Será?

3 comentários:

  1. Olha, independente desse formato de programa infantil dito no texto, praticamente, não há programas infantis onde incluo também o saudoso programa do "Balão Mágico", "Bozo", programa do Fofão (na Band) e "TV Criança" (Band).

    Não vieram programas infantis que substituissem à altura os programas citados no primeiro parágrafos.

    Em relação dos enlatados, só tem lixo e os bons enlatados (alguns), só se vê no Youtube pois essa criançada atual tem nojo de Zé Colmeia, "Plic/Ploc/Chuvisco", "Olho Vivo/Faro Fino", "Space Ghost", etc. preferindo os Narutos, Rebeldes e Ben's 10 da vida.

    ResponderExcluir
  2. Esses cartoons citados aí são todos bem anteriores ao Xou da Xuxa e derivados. Dos cartoons legais dos anos 80, só o Caverna do Dragão continua sendo reprisado na TV aberta. He-Man e She-Ra começaram a sair em DVD só recentemente. O restante não passa mais nem na TV paga. Só no YouTube, mesmo. Ou em endereços alternativos, como este aqui com o cartoon dos Ewoks: http://ewoks.4shared.com

    ResponderExcluir
  3. Mesmo assim, nem tudo é disponível porque os tais direitos autorais que vão alegar essas distribuidoras.

    Para se ter uma ideia, não há um só episódio no Youtube de "Josie e As Gatinhas no Espaço" e "Goober e Os Caçadores de Fantasmas".

    ResponderExcluir