Política, cultura e generalidades

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A decepcionante (como não poderia deixar de ser) matéria d'O Globo sobre o dial carioca

Mais uma das trocentas matérias tendenciosas feitas pela imprensa brasileira sobre o rádio. Bem ao estilo da histórica matéria de capa O mundo encantado das FMs, que a Veja publicou lá por volta de 1983/1984, que chegou a decretar a morte do AM.

A matéria de hoje saiu no Segundo Caderno de O Globo. Na Internet, publicaram a mesma matéria aqui, com o nome Uma nova era do rádio, e colocaram também uma lista de programas atualmente no ar do Rio de Janeiro, intitulada Dez razões para sintonizar o rádio em 2011.

Sinceramente... A equipe de O Globo se esforçou para apresentar um panorama do dial carioca, mas decepcionou, e muito. Mandei hoje para lá uma carta, que poderá (ou não) ser publicada no jornal amanhã:

De: "Marcelo Delfino"
Para: cartas@oglobo.com.br

Para a seção Cartas dos Leitores

A reportagem de hoje do Segundo Caderno ("Uma nova era do rádio") procurou dar um panorama do que se passa no atual dial carioca, mas deixou a desejar. O jabá ainda infesta mais da metade do dial, notadamente as rádios populares e as religiosas. Sem contar que não se pode classificar como "periferia" o "fânqui carioca" promovido por mega empresários do "fânqui" como Rômulo Costa e DJ Malboro. Faltou informar também futuros projetos, como a nova
Kiss FM Rio, que já tem outorga e só não está no ar por enfrentar resistências governamentais na instalação dos transmissores no Morro do Sumaré.

Além do que escrevi nesta carta, também cheguei a outras conclusões.

Logo após o título, a matéria vem com o subtítulo Passados o tempo dos jabás e a ameaça da internet, uma mudança qualitativa e quantitativa se faz notar nas ondas do 'dial', que apresentam um crescimento de 10% no número de ouvintes. A matéria já começou errada. Ok, a Internet pode até não ameaçar mais o rádio. Pelo contrário: está até servindo de plataforma para diálogo com os ouvintes e para busca de material para as programações. Mas o jabá continua imperando em praticamente todas as rádios populares, pop e religiosas do dial carioca, e mesmo algumas gagás contemporâneas. E ainda temos os jabás não musicais: o noticioso, o político e o esportivo.

Mudança qualitativa e quantitativa? Não há nem uma coisa nem outra. O que temos é o mesmo panorama dos anos 1990 e 2000: um monte de emissoras com programações risíveis ou lamentáveis (excetuando, talvez, as estatais Nacional AM, MEC AM, MEC FM e Roquette Pinto FM, além da MPB FM e da JB FM) e o dial sendo salvo por um outro programinha nas outras rádios. O que interessa são rádios que dê para sintonizar e ouvir o dia todo, sem precisar mudar de estação. E isso só é possível em rádios musicais, porque é um saco ouvir notícias repetidas 24 horas por dia nessas ouníus da vida.

Por fim, a matéria não anota nada sobre outro projeto, além da Kiss FM que citei na carta: o rádio AM e FM digital. Mas isso talvez não interesse tanto aos radiodifusores e mesmo a alguns radialistas. Afinal, em time que está ganhando não se mexe. O ouvinte é a parte que menos interessa a essa gente.

Mas acho que estou pedindo demais em querer que O Globo faça uma matéria excelente sobre o dial carioca. Afinal, o Sistema Globo de Rádio é concessionário da Beat 98 (sem comentários), da Rede Globo de Rádio (que trabalha para o país todo, menos pro Rio), da CBN (que faz desde 2005 o que a Globo AM passou a fazer no ano passado: repetir a mesma programação no AM e no FM, desperdiçando canais e contratando menos radialistas) e da Mundial AM 1180 (arrendada para uma dessas igrejolas que tem por aí).

Texto publicado originalmente ontem no Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro.

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