Política, cultura e generalidades

domingo, 22 de agosto de 2010

Mãe? Dilma Rousseff está mais para madrasta


Fonte: Blog do Alon:

Guerra Santa (22/08)

No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação

Aqui e ali ouvem-se reclamações sobre como
Luiz Inácio Lula da Silva conduz a campanha, recorrendo a categorias ditas infantilizantes pelos críticos. Ora, o presidente da República usa no discurso as armas que imagina mais eficazes para garantir a eleição de Dilma Rousseff. Não é inteligente pedir a Lula que faça o serviço dele e também o dos adversários. Não dá para imaginar sua excelência matutando: `Puxa, esse argumento é bom para eleger a Dilma, mas se eu usar vou contribuir para a regressão da cultura política brasileira. Então é melhor não usar.”

Sobre “cultura política” tem uma cena esclarecedora em
Reds, o filme, com Warren Beatty no papel de John Reed, o jornalista americano que foi cobrir e se envolveu na Revolução Russa. No processo de consolidação do poder bolchevique em todo o antigo Império dos czares, o comboio ferroviário vermelho chega a uma região islâmica e Reed começa a discursar para a multidão, noticiando o advento da nova era. Certa hora ele percebe, surpreso, ter dito “guerra santa” em vez de “luta de classes”. O discurso havia sido adaptado para ser mais bem compreendido pelas massas.

Assim é a vida. Lula descobriu-se o “pai” e vende na eleição a promessa de que Dilma o sucederá como “mãe”. Nada tem a ver com as ancestrais promessas petistas de uma nova cultura política, de mais autonomia da sociedade em relação ao Estado, de recriação do povo como sujeito de sua própria história, etc. Tais categorias repousam na prateleira à espera de intelectuais dispostos a entender e explicar mais este caso de digestão teórico-política. No plano do frio cálculo eleitoral, “pai” e “mãe” são expressões fáceis de compreender e comunicar, e preenchem uma necessidade, pois é bem possível que a maioria do eleitorado esteja atrás desse tipo de relação.

E Lula vai em frente, sem medo de ser feliz, como escrevi aqui outro dia. Os que pretendem interromper o domínio do
PT que espremam a cabeça para descobrir o que e como fazer. Política é relação de vetores, de forças. Se um vetor não enfrenta resistência eficaz, é natural que siga adiante. Como agora na eleição.

A proposta de Lula para o Brasil está clara: eleger Dilma, sustentada na aliança PT-
PMDB, e abrir uma era de reformas político-institucionais que consolidem certa visão econômico-social.

Não se sabe exatamente o que seriam essas mexidas, mas eleição não é torneio de detalhismo. Nem a maioria está interessada em saber se a reforma política virá por voto em lista fechada ou distrital.

Mas é fácil de compreender quando o PT diz que quer eleger Dilma para continuar o que Lula fez, e que ela vai precisar de uma sólida maioria congressual para evitar que o governo seja atrapalhado pelos adversários.

A mensagem do PT está claríssima, a da oposição ainda não. Nem é aqui o caso de criticar, pois a tarefa da oposição está longe de ser trivial. É só uma constatação.

Coluna (nas entrelinhas) publicada neste domingo (22) no Correio Braziliense.

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