Política, cultura e generalidades

domingo, 16 de maio de 2010

Ainda sobre a CNBB


Estou debatendo sobre o assunto no blog do Rudá Ricci. Está na hora de trazer o debate para os leitores deste blog.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ainda sobre a CNBB

Valéria Borborema, internauta que faz parte da comunidade que acessa este blog, alertou para o comentário muito genérico que fiz sobre a cisão interna na CNBB (ver comentários na nota abaixo, sobre a CNBB). Tentarei ser mais explícito nesta nota:

1) A CNBB possui uma espécie de acordo tácito entre o "centro" e os militantes da Teologia da Libertação. Presidência para os primeiros e coordenação das pastorais com o segundo bloco;

2) Contudo, parte do bloco que historicamente se vinculou à Teologia da Libertação se cindiu nos últimos anos. Um pouco - mas muito pouco - em virtude da superação de certo economicismo da
Teologia da Libertação. Há um acordo para se tentar pensar uma teologia mais holística e já se citou muito o que se produz atualmente na Ásia em termos teológicos;

3) A divisão ocorreu principalmente em virtude da frustração com o governo
Lula (em especial, após a crise aberta com o mensalão e a transposição do São Francisco) e o isolamento político-social de muitos agentes pastorais. O lulismo desconsiderou a agenda das pastorais sociais e a própria ascensão da nova classe média diminuiu o apelo do discurso que orientava a ação de muitos segumentos sociais que se sentiam marginalizados;

4) A decorrência desta nova situação gerou divisão em vários blocos, envolvendo agentes pastorais e bispos "progressistas". Uma parte decidiu evitar a partidarização por considerar que o sistema partidário estaria completamente corroído moralmente. Um segundo bloco se aproximou do discurso ambientalista, o que cria uma certa química com a candidatura de
Marina Silva. E um terceiro bloco continua fiel à Teologia da Libertação clássica, o que os mantém dialogando com Plínio de Arruda Sampaio, candidato á Presidência da República pelo PSOL;

5) Com a cisão dos "progressistas", o centrão da CNBB se sente mais livre para fazer valer seu passe de fiel da balança. Daí a projeção dos conservadores da CNBB. Não por aumentarem seu peso numérico, mas em virtude do racha do bloco que está no outro extremo.

Enfim, o lulismo vem alterando profundamente o mapa político do país. Daí porque tenha que ser estudado como fenômeno social e político, fugindo da gangorra meramente eleitoreira. Não se trata de ser a favor ou contra. Trata-se de entender o Brasil de hoje.

Postado por Rudá Ricci às 08:21

6 comentários:

Valéria Borborema disse...
Obrigada pela aula, Rudá. Seu blog não é apenas uma diário. Considero-o um estímulo à reflexão que, infelizmente, parece não ter lugar na imprensa atual, que, diga-se de passagem, deveria ser o habitat natural de debates esclarecedores.

13 de maio de 2010 09:08

Marcelo Delfino disse...
Eu sempre fui favorável que o Vaticano intervenha na CNBB, nomeando uma Presidência mais tradicional (mais próxima do Papa e da ortodoxia do credo católico) que nomeasse todos os agentes das pastorais da CNBB. Mas parece que o papa Bento XVI não é tão conservador como dizem. Diria até que é conivente com a CNBB.

Enquanto isso, vemos esse racha entre os bispos vermelhos: as luletes incuráveis (praticamente co-fundadores do PT) e as luletes arrependidas, que andam se arrastando para o lado do PSOL.

Desejo todo sucesso aos conservadores, que nunca tiveram o poder efetivo na CNBB. Tomem o poder, então!

13 de maio de 2010 11:22

Rudá Ricci disse...
Penso exatamente o oposto. A CNBB precisa manter a independência desde o período de dom Hélder. Com isto, é mais fiel ao Brasil, ao catolicismo brasileiro. Sua proposta geraria artificialismo.

13 de maio de 2010 11:35

Toinzim2323 disse...
Meu Caro, Você diz que há uma parcela de Bispos que acham que "o sistema partidário estaria completamente corroído moralmente." Não seria o macaco a falar do rabo alheio?

13 de maio de 2010 11:51

Rudá Ricci disse...
Toinzim,
Se for por aí, vamos ter que impor a lei do silêncio para 98% dos terráqueos. Daí a diferença entre razão instrumental e crítica.

13 de maio de 2010 12:16

Se a minha proposta parece ser pelo artificialismo, pouco me importo. O que importa é que a CNBB está hoje numa crise de finalidade sem precedentes. Não ajuda plenamente a Igreja Católica nem a sociedade civil como um todo, exceto pela adesão incondicional ao projeto Ficha Limpa, que o senador Jucá disse que não é prioridade do Governo Lula.

É preciso tentar algo diferente na CNBB. Diferente de tudo que já foi feito desde a fundação. Uma gestão conservadora ou ultra conservadora (com ou sem intervenção do Vaticano) seria uma experiência interessante.

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