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segunda-feira, 15 de março de 2010

O Globo chega atrasado ao relançamento do CD dos kavernistas


O Estadão noticiou o relançamento do CD Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 no dia 3 de março. Somente ontem, quatro dias depois do relançamento do CD, a redação d'O Globo lembrou de publicar alguma coisa a respeito. O Globo já foi um jornal mais ativo.

Fonte: O Globo.

Disco cultuado de Raul Seixas e cercado de lendas volta às lojas

Plantão Publicada em 14/03/2010 às 09h38m
João Pimentel

O ano era 1971. Raul Seixas havia deixado Os Panteras em Salvador, mas não seu amor pelo rock. Produtor de ponta da gravadora CBS, influenciado por discos como "Freak out", de Frank Zappa, "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", dos Beatles, além do "Tropicália", ele resolveu também dar o seu recado e gravar a sua turma: o capixaba Sergio Sampaio, o baiano Edy, que mais tarde acrescentaria Star ao seu nome, e a sambista paulistana Míriam Batucada. O resultado foi um fracasso colossal. A gravadora não gostou, a Censura menos ainda, as rádios ignoraram e nem show de lançamento teve. Mas "Sessão das 10", da intitulada Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, tornou-se um dos discos mais cultuados, uma raridade para colecionadores que agora é relançada pela Sony Music.

Durante muito tempo se alimentou a lenda de que as gravações foram feitas às escondidas, à noite, sem o consentimento da CBS, e que, por esse motivo, Seixas teria sido demitido. Mas Edy Star, único sobrevivente dos quatro artistas (Seixas morreu em 1989, Sampaio e Míriam, em 1994), isso não aconteceu, até mesmo porque, no ano seguinte, em 1972, ele produziu o compacto "Diabo no corpo", de Míriam, e o LP de estreia da cantora Diana, ambos pela gravadora.

- As gravações duraram 15 dias, com hora marcada no estúdio e anuência do diretor artístico da CBS. Recordo as tardes de reuniões para compor, e que todas as minhas músicas foram riscadas pela Censura Federal, a ponto de o relações-públicas pedir para não mandar mais nada com meu nome. Por isso, esse disco tem coisas minhas que não pude assinar na época, mas não vou mexer nisso agora - diz Star, que mora desde 1992 em Madri.

"O mais curioso é que o Raul, sendo do meio machista do rock, chamou uma lésbica, a Míriam, e o Edy, o primeiro artista a se assumir gay publicamente no Brasil"

Ele lembra que conheceu Seixas no Elvis Rock Clube, em Salvador, e que anos depois se reencontraram em um programa da Rádio Cultura, quando Raulzito e Os Panteras o acompanharam em alguns números.

- Quando o Raul me chamou para gravar, eu era conhecido apenas na noite baiana, onde cantava e já era um artista gay assumido, que escandalizava os bons costumes.

Sem a menor cerimônia, Star responde por e-mail, em letras garrafais, que o disco não significou "NADA!" em sua carreira. Nem na dele e nem na de nenhum dos parceiros.

- Aliás, talvez só para a carreira de Raul, porque lhe deu coragem pra cantar num festival e, tempos depois, sair da CBS para seguir sua carreira. Só quem gostou foi o pessoal do "Pasquim", pela provocação. Na época tínhamos uma proposta de um show, quase uma ópera-rock, mas nenhuma dessas musicas foi tocada em rádio ou show, a não ser a "Sessão das 10", que o Raul regravou depois. Quando acabamos de gravar o disco, cada um tomou o seu rumo. A Míriam detestava o disco. Depois disso tudo, passou a espinafrar o Raul.

O jornalista e produtor Rodrigo Faour, responsável pela reedição do disco, conta que sonhava em relançar toda a obra de Simone em uma caixa. Ao chegar à Sony, gravadora dos discos da cantora nos anos 1980 como "Corpo e alma", "Cristal" e "Amar", foi informado que estes discos poderiam ser relançados na série "Caçadores de música". Nesse bolo veio o "Sessão das 10".

- Este disco é daqueles que crescem com o tempo. Ou porque estão muito à frente de seu tempo ou porque ganharam importância histórica. Muita coisa que se fala hoje da Tropicália e da Bossa Nova ficou mais importante com o tempo. Em sua época, era para poucos mesmo - diz. - O mais curioso é que o Raul, sendo do meio machista do rock, chamou uma lésbica, a Míriam, e o Edy, o primeiro artista a se assumir gay publicamente no Brasil. Vejo no disco uma influência do "Tropicália", de 1968. Mais caótico, sem objetivos intelectuais, mas centrado na crítica ao movimento hippie, ao desbundismo, ao conformismo.

O disco tem a maioria das músicas assinadas por Sampaio e Seixas, e a dupla também interpreta a maior parte do repertório. Edy e Miriam cantam em duas faixas. A única não composta por eles é "Soul tabaroa", de Antonio Carlos e Jocafi. Além do clássico "Sessão das 10", traz boas canções de Seixas como o, acreditem, samba "Aos trancos e barrancos" ("Rio de Janeiro você não me dá tempo de pensar/ com tantas cores sob este sol/ Pra que pensar, se eu tenho o que quero?/ Tenho a nega, meu bolero, a TV e o futebol") e "Dr. Paxeco", além do "Chorinho inconsequente", de Sampaio, e "Êta vida", da dupla.

Era o tempo da ditadura, da radicalização da resistência política armada, do desbunde, do tropicalismo, e Raul Seixas e companhia deram sua visão bem peculiar desse contexto. O único sobrevivente do grupo, Edy, confessa que nunca teve a menor ideia do que fosse a tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista.

- Sabe que eu não sei??!!

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