Política, cultura e generalidades

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Pressa do governo ameça futuro do Enem

Fonte: JB.

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Pressa e falta de planejamento. Essas são as duas principais explicações apontadas pelos especialistas em educação ouvidos pelo JB para que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tivesse todos os problemas que apresentou desde que a primeira prova elaborada vazou em setembro do ano passado. Na opinião dos entrevistados, os contratempos colocam em risco a credibilidade do exame e o desejo do ministro da Educação, Fernando Haddad, de acabar com o vestibular no Brasil.

Para o professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Remi Cassione, mais do que criar um acesso mais justo ao ensino superior, o Ministério da Educação apressou o uso da nota do Enem nas universidades numa estratégia para suprir uma demanda que tinha sido criada com a abertura de novas vagas por meio da Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni):

– A maioria das instituições que aceitaram o Enem como única prova foram as criadas pelo Reuni. Foram criados novos campi e nem todos já estão preparados para realizar o vestibular.

Segundo Cassione, os problemas ocorridos com o Enem não são uma grande surpresa para os especialistas em educação, tampouco para quem tem um conhecimento razoável de administração pública.

– Já sabíamos que o Enem (a prova cancelada) não ocorreria desde que a Cesgranrio e o Cespe desistiram da licitação – garante o professor. – A empresa vencedora não tem trajetória nessa área. O MEC deveria ter cancelado a licitação porque tem horas que é melhor recuar.

Na opinião de Cassione, as universidades federais devem continuar a realizar seus vestibulares porque o Brasil está longe de conseguir fazer uma prova única e justa que permita o acesso às instituições de nível superior.

Ao contrário de Cassione, a presidente da Comissão de Educação do Senado, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), acredita que o Brasil está sim caminhando para realizar um vestibular único. Já a continuidade do Enem dependerá da aplicação das próximas provas.

– O MEC foi muito rápido. O planejamento não foi acertado – dispara a senadora. – Um professor de português que ajudou a corrigir as provas relatou que não foi feita nenhuma reunião prévia e que ele havia recebido as instruções por e-mail.

Para o senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque (PDT-DF), as falhas ocorridas serão rapidamente corrigidas, mas as correções não farão do Enem um sistema justo:

– O Enem é um vestibular como todos os outros. Ele não vai mudar nada porque tem como base uma única prova que não acompanha o aprendizado dos alunos.

O senador acredita que o Programa de Avaliação Seriada (PAS) – que avalia o aluno a cada ano do ensino médio – aplicado há alguns anos pela UnB, é a maneira mais justa de avaliar os alunos.

Histórico

Em outubro do ano passado, o MEC cancelou o Enem porque houve vazamento das provas. O exame foi remarcado para dezembro, mas a data escolhida coincidia com o vestibular de pelo menos seis federais e com a segunda fase de outras outras instituições. Os problemas levaram o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep), Reynaldo Fernandes, a entregar o cargo em dezembro passado. Na semana passada, o Sistema de Seleção Unificada que usa a nota do Enem 2009 para o ingresso em universidades federais apresentou falhas técnicas e dificultou as inscrições. As falhas já foram corrigidas.

22:10 - 02/02/2010

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