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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

No fevereiro mais quente dos últimos 50 anos no Rio, Light deixa 18 bairros sem luz

Rio 2016 - Cidade dispendiosa
Fonte: O Globo.

No fevereiro mais quente dos últimos 50 anos no Rio, Light deixa 18 bairros sem luz

Publicada em 10/02/2010 às 23h25m
Fábio Vasconcellos, Fernanda Baldioti e Rogério Daflon

RIO - Na última segunda-feira, os termômetros do Inmet chegaram a 41,5 graus em Santa Cruz, a maior temperatura deste ano e também a mais alta já registrada durante o mês de fevereiro. Tortura igual, em fevereiro, só aconteceu em 2003, quando o Rio teve idênticos 41,5 graus. Até agora, este tem sido o fevereiro mais quente dos últimos 50 anos. A média das máximas chegou a 39,7 graus nos nove primeiros dias do mês, quase seis graus acima da média das máximas do mesmo período de 2009, de 34 graus.

"Agora a Fernanda Abreu tem que atualizar para Rio 41 graus"

- O refrão Rio 40 graus não é poesia, verão aqui é quente. Agora a Fernanda Abreu tem que atualizar para Rio 41 graus - brinca o previsor Lúcio de Souza, do Inmet.

E se o calor já está sufocante, imagina sem energia elétrica? Nos últimos dois dias, moradores de 18 bairros do Rio enfrentaram o transtorno da falta de luz, justamente quando as temperaturas oscilaram entre 38 e 40 graus. A situação mais grave ocorreu na Tijuca, na Rua Conde de Bonfim, onde o abastecimento foi interrompido por mais de 48 horas, e só será normalizado após a substituição de um transformador. Em outras três ruas do bairro o fornecimento retornou na tarde desta quarta-feira. Faltou luz também em trechos de Ipanema, Copacabana, Bangu, Méier, Pavuna, Laranjeiras, Botafogo e Santa Teresa. A área coberta pela concessionária Ampla também não fica livre dos problemas: nesta quarta-feira, faltou luz entre 17h30m e 19h30m em várias regiões do Noroeste Fluminense.

No Méier, na Rua Castro Alves, moradores reclamaram que ficaram mais 15 horas sem luz. Já na Tijuca, Palmira Guiaroni, de 85 anos, precisou descer cinco andares de escada no prédio onde mora, na Conde de Bonfim, com a ajuda da filha, Cristina, de 49. Houve cortes de luz também nas ruas Adalberto Aranha, Antônio Salema e Félix da Cunha.

"Se a gente atrasar o pagamento à Light, nossa luz é cortada com muito mais rapidez do que leva para voltar"

- Desde o dia 8, a partir das 20h, nosso prédio fica sem luz. Se a gente atrasar o pagamento à Light, nossa luz é cortada com muito mais rapidez do que leva para voltar. Precisei sair com minha mãe, e ela desceu cinco andares com extrema dificuldade - conta Cristina.

Crianças substituem banho por álcool gel

Por causa da falta de luz, crianças da Conde de Bonfim afirmaram que não tomaram banho para ir escola, porque a bomba d'água do prédio delas parou de funcionar. A solução foi apelar para o álcool gel. Num asilo da Conde de Bonfim, com 53 idosos, a situação era desoladora.

- Imagina se eu tiver de fazer uma nebulização em algum idoso, e o quarto dele não tiver luz? - afirmou Rosa Julião, responsável pelo asilo Bosque da Vovó.

Em vários bairros, as críticas contra a Light ocorrem especialmente em relação à demora no atendimento ou mesmo à falta de resposta da empresa. A Light explicou que aumentou em 30% o seu efetivo para este verão. Atualmente, são 1.900 funcionários. Mas o efetivo da concessionária não tem dado conta da demanda. Sem ventilador ou ar-condicionado para enfrentar o forte calor, Claudiney Ferreira de Morais, morador da Rua Prefeito João Felipe, em Santa Teresa, criticou os serviços da empresa:

- A Light só pede para esperar. Ainda por cima disseram que a primeira reclamação a esse respeito (falta de luz) foi entre 7h e 8h, sendo que eu registrei uma reclamação entre 5h e 6h. Só não reclamei antes porque o Disque Light não funciona mesmo.

Na Zona Sul, o trecho de Botafogo próximo ao Shopping RioSul ficou sem energia por quase duas horas. O apagão ocorreu por volta das 18h desta quarta-feira. Nas ruas Belisário Távora e Cardoso Júnior, em Laranjeiras, a falta de luz ocorreu na terça-feira à noite. Moradores contaram que o problema se repete há anos, especialmente quando chove e durante o verão. Em Ipanema, Karina Canoro contou que vários pontos do bairro ficaram no escuro por mais de 12 horas:

- Meu vizinho, que é um senhor idoso e precisa de oxigênio, teve que ir para a emergência de um hospital. É a terceira vez que acontece em um mês. Estou jogando toda a comida da geladeira no lixo novamente. A Light vai dar algum tipo de desconto? Aliás, eu já morei em Uganda, e o serviço de eletricidade é bem melhor.

Copacabana também teve trechos sem luz. Segundo Sônia Machado Barbosa, na segunda-feira houve uma pane no sistema elétrico, que atingiu alguns prédios da Rua Siqueira Campos:

- Vários moradores passaram horas tentando falar com a emergência da Light, mas só se ouve uma resposta gravada de que estão priorizando as urgências. Às 17h do dia 9 o fornecimento foi normalizado e todos voltaram para casa, já que sem luz não é possível ligar a bomba d'água e os prédios ficaram sem água também. Em torno das 22h o problema voltou a acontecer, e mais uma noite passamos sem luz, elevador e água.

Outros bairros como Bonsucesso, Cascadura, Piedade, Ramos, Pilares, Irajá, Vila Isabel, Parada de Lucas e Engenho de Dentro também enfrentaram problemas. Fernando Correia contou que um trecho da Rua Agrícola, em Bangu, ficou sem luz por 48 horas. O caso se repetiu em Piedade, na Rua João Pinheiro, onde o abastecimento foi paralisado ao meio-dia de terça-feira.

Moradora do Engenho de Dentro, Nilcilene Santana afirmou que trechos das ruas Borja Reis e Dois de Fevereiro estavam sem energia desde as 2h de terça-feira. Segundo ela, havia lojas com mais tempo às escuras: desde a 1h da madrugada de segunda. O morador Nilson Coelho Rocha disse que um transformador estava vazando óleo na Rua Conselheiro Otaviano, em Vila Isabel, o que deixara a região sem luz por mais de 30 horas.

Parte do problema está relacionado à chuva que caiu na terça-feira na cidade e danificou algumas instalações. Mas, segundo a Light, há também um aumento no consumo de energia. Em janeiro, o crescimento foi de 11%, comparando-se com o mesmo período de 2009. Com isso, o Rio bateu o recorde de consumo dos últimos 11 anos para o mês de janeiro. O aumento já vinha ocorrendo desde novembro, quando foi registrada expansão de 25%, em relação a novembro de 2008. Somente nas ligações residenciais, o crescimento foi de 33%.

Presidente da OAB libera advogados do uso do paletó e gravata

Agravado pelas interrupções no fornecimento de energia, o verão do Rio ainda ameaça quebrar uma tradição. O presidente da OAB-Rio, Wadih Damous, resolveu nesta quarta-feira liberar os profissionais do Rio do uso de paletó e gravata. Já prevendo resistências dos tribunais aos advogados de calça e camisa sociais, encaminhou um pedido à Comissão Nacional de Justiça, com pedido de liminar, para obrigar o Judiciário a liberar a presença dos advogados mais informais. Segundo a petição enviada à CNJ, há casos de desmaios em fóruns por conta da sensação térmica de quase 50 graus. O CNJ e o Tribunal de Justiça do Rio não informaram se acolherão o pedido.

Enquanto a decisão não for tomada, o sufoco continua. A previsão é não chegue nenhuma frente fria nos próximos quatros dias. A temperatura continuará alta, e chuva, só esparsa.

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