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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lula lamenta morte de Zapata mas ignora carta de dissidentes

PT
Afinal, tratam-se de dissidentes dos companhêro Fidel e Raul.

Fonte: JB.

Lula lamenta morte de Zapata mas ignora carta de dissidentes

Agência AFP

HAVANA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira, em Havana, que lamenta "profundamente" a morte do preso político cubano Orlando Zapata, falecido na véspera após dois meses e meio de greve de fome.

"Lamento profundamente que uma pessoa tenha morrido por greve de fome", revelou Lula à AFP quando seguia do hotel para o Palácio da Revolução, para se reunir com o presidente cubano, Raúl Castro.

Lula garantiu não ter recebido "qualquer carta" pedindo sua intervenção na libertação de presos políticos cubanos, e lamentou a versão de que obteve uma "carta impressa" neste sentido.

"Se as pessoas se dirigissem à embaixada brasileira (...), se tentassem entrar em contato comigo, jamais deixaria de atendê-las. O que não posso é chegar a um país e me reunir com um grupo de pessoas que disseram que falaram comigo quando não falaram", destacou o presidente brasileiro.
"A solidariedade faz parte da minha vida e nunca deixo de tratar destes assuntos", garantiu Lula.
Ao menos 50 presos políticos pediram ao presidente brasileiro, em carta aberta, que intercedesse pela libertação dos dissidentes cubanos e se envolvesse no caso de Zapata, um pedreiro negro de 42 anos detido em 2003 e condenado a 32 anos de prisão por "desacato" ao governo e "desordem pública".

Na carta, os dissidentes presos também destacam que Lula "seria um magnífico interlocutor" para se obter do governo cubano "as reformas econômicas, políticas e sociais urgentemente requeridas" na Ilha.

Segundo Berta Soler, do grupo das Damas de Branco, Zapata "já está morto, mas ainda há muitos presos políticos doentes que deveriam estar em suas casas porque não fizeram nada". "Vamos ver se Lula se interessa por isto".

Zapata, considerado um prisioneiro de consciência pela Anistia Internacional, faleceu em um hospital de Havana na terça-feria após uma greve de fome iniciada em dezembro em protesto pelas péssimas condições carcerárias.

Em um ato celebrado no Porto de Mariel, Raúl Castro disse ao lado de Lula que a morte de Zapata "foi resultado dessa relação com os Estados Unidos".

O presidente cubano "lamentou" a morte de Zapata, mas garantiu que em Cuba "não existem torturados, não houve torturados, não houve execução". "Isso acontece na base (americana) de Guantánamo".

Após chegar na noite de terça-feira a Havana vindo do México, onde participou da Conferência do Grupo do Rio, Lula iniciou em Mariel sua intensa agenda em Cuba.

A modernização de Mariel, que custará 600 milhões de dólares no total, permitirá que embarcações muito grandes para o porto de Havana atraquem ali.

Lula se reuniu hoje, durante duas horas e meia, com Fidel Castro, e verificou que o líder cubano está "bem" e com ainda "mais disposição" em relação ao encontro precedente, em outubro de 2008.

"Minha reunião com ele (Fidel Castro) foi uma reunião de velhos amigos, de velhos companheiros. Ele é muito interessado nas coisas do Brasil. Tivemos uma ''pequena conversa'' de duas horas e meia".

"Trocamos muitas ideias, discutimos muitos assuntos, incluindo cana-de-açúcar, soja, leite, eletricidade, e pude constatar que ele está bem, com mais disposição que da outra vez. Estou muito feliz", destacou o presidente brasileiro.

Fidel, 83 anos, está afastado da vida pública desde 2006, devido a um grave problema de saúde.

Esta é a quarta viagem de Lula a Cuba desde que chegou à presidência, em janeiro de 2003.

23:28 - 24/02/2010


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Fonte: O Globo.

Velório de preso político deflagra repressão em Cuba
Publicada em 24/02/2010 às 23h59m
Agências Internacionais
Luiza Damé* e Cristina Azevedo

HAVANA - O presidente de Cuba, Raúl Castro, responsabilizou na segunda-feira os Estados Unidos pela morte do preso político Orlando Zapata Tamayo, durante um discurso ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua quarta visita oficial à ilha . A morte de Zapata desencadeou uma nova onda de repressão em Cuba com a detenção e a prisão domiciliar de dezenas de opositores que tentavam chegar a Holguín para o velório do operário e bombeiro hidráulico, detido desde 2003 e considerado preso de consciência pela Anistia Internacional. Segundo a Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional de Cuba, há outros 25 presos políticos com graves problemas de saúde.

Ao chegar para uma visita ao Porto de Mariel, acompanhado de Lula, Raúl Castro antecipou-se para falar do assunto, lamentando a morte do preso político, que estava há quase três meses em greve de fome.

- Lamentamos muito. Ele teve problemas na prisão, foi levado a nossos melhores hospitais. Morreu. Isso se deve à confrontação que temos com os Estados Unidos. Perdemos milhares de cubanos, sobretudo na primeira década, vítimas do terrorismo de Estado. Entre mortos e feridos que ficaram mutilados e deficientes, por volta de 5 mil. Diplomatas foram assassinados no estrangeiro, inclusive nos Estados Unidos, e desapareceram em outros países, na Europa, em consequência dessa luta - disse Raúl.

"Assassinato premeditado"

Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, Elizardo Sánchez contou ao GLOBO que houve "30 casos de prisão relacionados à morte de Zapata e outros 30 de prisão domiciliar". Para Sánchez, Zapata foi vítima de "um crime horrendo".

- Ele foi mantido num hospital para presos sem UTI e só na véspera de sua morte foi transferido para um hospital melhor, em Havana, quando já era tarde demais.

Dissidentes que tentavam chegar à localidade de Banes, em Holguín, a 830 quilômetros a sudeste de Havana, eram impedidos, detidos ou forçados a retornar. Só os que partiram ainda de madrugada conseguiram chegar. Houve muita incerteza ainda quanto ao paradeiro do corpo: segundo dissidentes, o governo atrasou a liberação para que o velório fosse curto, mas a família conseguiu adiar o enterro da tarde de quarta-feira para a manhã desta quinta-feira.

Com a localidade isolada, o blog de Yoani Sánchez passou a ser uma das poucas pontes entre Banes e o restante do mundo. "Meu filho perdeu a vida num assassinato premeditado. Os assassinos queriam que velássemos uma foto. Eu os expulsei de minha casa", disse Reina Tamayo à blogueira. "Raúl Castro agora lamenta a morte do meu filho, depois de não tê-lo atendido. Por que não permitiram ao meu filho as condições carcerárias que Batista deu a Fidel Castro?" Segundo Yoani, a casa da família Zapata estava cercada por forças de segurança e ela foi brevemente detida para não assinar o livro de condolências.

Em Havana, dezenas de blogueiros, dissidente e pessoas comuns foram à casa de Laura Pollán, uma das Damas de Branco, onde uma faixa negra na porta indicava um velório simbólico.

Curiosamente, antes de ser preso por desacato, em 2003, Zapata não era um dos dissidentes mais conhecidos. Mas seus dias na prisão e a greve de fome por melhores condições motivaram apelos de governos e organismos internacionais. Ele se tornou o primeiro preso político a morrer em greve de fome em 40 anos. Em 2007, o governo soltou Miguel Tamayo quando sua saúde já estava muito debilitada, e ele acabou morrendo num hospital civil.

No Porto de Mariel, ao lado de Lula, Raúl Castro perguntou se havia muitas perguntas a serem feitas. Diante da resposta positiva, afirmou que a primeira seria sobre a morte do preso político - "o homem que morreu em greve de fome". Respondendo às suas próprias perguntas, o presidente cubano partiu para o ataque aos EUA, que lideram um boicote econômico à ilha desde a década de 60, e chamou o governo americano para debater os problemas entre os dois países.

- No dia em que os Estados Unidos decidirem conviver melhor conosco acabarão todos esses problemas. Estamos dispostos a discutir com o governo americano todos os problemas que eles quiserem. Vou repetir três vezes: todos, todos, todos. Mas não aceitamos a discussão se não for em absoluta igualdade. Não reconhecemos a nenhum país, por mais poderoso que for, nem a um conjunto de países, que pode ser a União Europeia, o direito de se imiscuir em nossos problemas internos, mas estamos dispostos a discutir todos os nossos e também os problemas deles - disse.

Raúl negou tortura e assassinatos de adversários do regime castrista:

- Aqui ninguém foi torturado. Aqui não houve nenhuma execução extrajudicial. Aqui foram torturados, mas na base naval de Guantánamo, que não é nosso território. Aqui quem governa é a revolução - disse, e acabou admitindo que em Cuba não há liberdade de expressão, mas afirmou que os jornais só publicam o que interessa a seus proprietários

* No trecho Cancún/Havana, a repórter viajou no avião da FAB, devido a dificuldades de voos comerciais

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